Muito antes de o Brasil ser batizado com o nome da árvore típica, os costumes dos habitantes originários da terra já despertavam interesse entre viajantes e aventureiros europeus. Pedro Álvares Cabral já havia desembarcado na nova região, e o olhar do Velho Continente sobre essa terra estava repleto de surpresa, preconceitos e muita curiosidade.

Os novos territórios ultramarinos da Coroa Portuguesa não despertaram grande interesse dos colonizadores em um primeiro momento. Mas isso não significava que o Novo Mundo não despertasse curiosidade na sociedade europeia. Pode-se arriscar dizer que, durante as primeiras décadas após o desembarque de Cabral, a relação com as inúmeras nações indígenas era complexa. Essa foi marcada por uma disputa entre diferentes nacionalidades europeias.

Franceses, espanhóis, portugueses, entre outros viajantes, oficiais ou não, desembarcaram no litoral brasileiro naquele período. Entre eles esteve o alemão Hans Staden, nascido em 1525, há exatos 500 anos. Descrito ora como aventureiro, ora como mercenário, Staden esteve por duas vezes no Brasil e vivenciou de forma mais próxima do que gostaria a cultura e a realidade dos Tupinambás. 

Segundo reportagem do site alemão DW, a primeira versão em livro do relato de Staden foi publicada em 1557. Foi intitulado como A Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Ferozes Devoradores de Homens, Encontrados no Novo Mundo, a América – também conhecida como Duas Viagens Ao Brasil.

O livro pode ser considerado como a primeira obra completa sobre as terras encontradas pelos viajantes portugueses 57 anos antes. Diferente da Carta do Descobrimento, escrita por Pero Vaz de Caminha, o relato de Staden mostra uma relação menos romantizada entre os povos indígenas que habitavam o Brasil no século XVI. Outra característica que difere do texto de Caminha é que a obra de Staden não ficou guardada como uma exclusividade da Coroa Portuguesa.

Como não estava em uma viagem oficial e sequer era regido pelos monarcas portugueses e espanhóis, que exploravam o Novo Mundo naquele momento, Staden pode publicar sua obra quando retornou à Europa. O livro rapidamente caiu no gosto popular, dentro daquilo que se pode chamar de popular em uma sociedade onde a leitura ainda era um privilégio diminuto.

Talvez até hoje o que mais chame atenção na obra sejam os rituais antropofágicos dos Tupinambás, povo indígena do qual Staden foi prisioneiro. O costume de fazer dos inimigos capturados uma refeição choca ao mesmo tempo que atiça a curiosidade dos que leem. Contudo, um outro aspecto pode passar despercebido a quem lê o livro, e são as relações criadas entre nativos e invasores.

O texto de Staden mostra uma relação de negociação e até de certa altivez dos nativos originários com as hordas europeias que desembarcaram no Brasil naqueles tempos. Embora dominassem a pólvora e outras tecnologias bastante eficazes no assassinato, os europeus também se mostravam extremamente supersticiosos e temerosos quanto a sua capacidade de enfrentar os índigenas.

Staden conseguiu escapar de virar prato de uma janta ritualística, e traz toda a visão de um povo que se achava muito superior aos nativos naquele momento. Fica claro em diversas passagens a forma como classificava os rituais antropofágicos como bárbaros, ao mesmo tempo em que classificava como natural assassinatos em massa dos indígenas.

O choque de culturas e forma de construção dessas relações entre universos distintos talvez seja a maior riqueza deste livro. E é justamente esta relação que torna a obra relevante até os dias atuais paras entendermos melhor aquele período histórico. Mesmo com os preconceitos típicos da época, a obra de Staden é ainda o relato mais rico e preciso sobre o comportamento dos Tupinambás e o funcionamento daquela sociedade.


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