“Sem ver, posso sentir”: literatura, escuta e pertencimento com Fabiana C.O.
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Lauro
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Alguns livros chegam aos nossos olhos. Outros, aos ouvidos — e ao coração. Sra. Capa, romance de estreia da autora Fabiana C.O., agora também disponível em audiolivro, é um desses que atravessa sentidos. Mais do que uma história sobre maternidade, sobrecarga e saúde mental, a obra é um chamado: para parar, sentir e tirar a capa — mesmo que só por um instante.
Descrito como “um livro que rasga os segredos da vida e tira, aos poucos, as camadas da alma”, Sra. Capa mergulha nas dores e delicadezas do vínculo entre mãe e filha. Ao acompanhar a jornada de Ana e Sol, o leitor encontra um relato afetuoso, por vezes dolorido, que nos convida a repensar o peso que carregamos — e, principalmente, o que silenciamos.
E agora, com o projeto Sem Ver, Posso Sentir, a autora dá voz — literalmente — a essa história, tornando-a acessível também a mulheres com deficiência visual ou em situação de baixo letramento. Uma obra que, mais do que lida, pode ser sentida em sua essência.
Com um gesto de delicadeza e entrega, Fabiana respondeu a todas as perguntas que enviamos. E, como é da alma deste blog, publicamos a entrevista na íntegra, como forma de respeito ao trabalho da autora e à beleza da escuta.
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A entrevista completa com Fabiana C.O.
O que a motivou a transformar Sra. Capa em um audiolivro e focar na democratização do acesso à literatura para pessoas com deficiência visual e não letradas?
Minha maior motivação foi o contato com mulheres de comunidades carentes e projetos sociais. Eu levava minha fala e meu livro para essas mulheres e percebi que não podia ser lida; isso abriu meus olhos para a quantidade de pessoas analfabetas e de baixo letramento que cruzava o meu caminho. Coloquei como meta transformar “Sra. Capa” em audiolivro e, durante o planejamento, percebi que um audiolivro também atinge pessoas com deficiência visual. A escolha da Fundação Dorina Nowill para Cegos como produtora só fez eu entender o tamanho deste mercado e da importância de levar literatura e cultura para todos.
Como foi a parceria com a Fundação Dorina Nowill para Cegos e o processo de produção do audiolivro?
A parceria com a Fundação Dorina Nowill foi a base para que o projeto ganhasse novas frentes. A Fundação foi escolhida como fornecedor e produtor exclusivo no audiolivro e foi responsável por muitos aprendizados e particularidades que eu conheci sobre deficiência visual. A gravação do audiolivro foi um trabalho rápido e de muito profissionalismo. A Fundação Dorina Nowill tem um estúdio incrível e é um grande fornecedor de audiolivro atualmente. Todas as pessoas, desde a narradora até a produção final, transformaram o meu livro em áudio, superando todas as minhas expectativas.
Sra. Capa aborda temas como sobrecarga feminina, saúde mental e machismo. Por que considera importante tratar dessas questões por meio da literatura?
Costumo dizer que, quando lemos uma história, assistimos a um filme e olhamos para o nosso cotidiano através da arte, algo maior acontece. Se eu apenas falasse sobre depressão, sobre as questões femininas, relacionamento abusivo, etc, talvez não seria escutada como consigo através da minha escrita. Cada leitor sente, entende e se conecta com a história de Ana, o que traz mais peso para os assuntos. Eu acredito que a literatura tem esse poder. Contamos a história de um personagem ficcional e criamos a conexão dele com o leitor/leitora. Um livro proporciona essa conexão de um jeito muito individual. É um sentir diferente e quando há essa troca, os assuntos abordados ganham outro espaço nas discussões e reflexões.
A perspectiva da filha, Sol, traz uma visão crítica e reflexiva sobre a figura materna. Como foi o processo de construir essa dinâmica entre mãe e filha?
“Sra. Capa” é um livro inspirado na história de minha mãe, da minha depressão e de como por muitos anos eu a observei dentro de casa sendo uma Sra. Capa e uma mulher maravilha. A construção da dinâmica das personagens foi algo muito natural, não vou dizer fácil, mas estava latente dentro de mim. Muitos pontos do livro são ficção, mas a figura materna que eu criei foi tão realista e intensa que parecia fazer parte de mim. Ana e Sol são mãe e filha, mas representam uma unidade feminina. Você pode começar o livro se identificando com uma e no final você percebe que entende e gosta das duas. Acredito que a relação que criei nos faz sentir ambas e não tem jeito melhor de trazer provocações e reflexões do que o sentir.
Como você espera que o projeto Sem Ver, Posso Sentir impacte as mulheres que vivem realidades semelhantes às retratadas na obra?
“Sem Ver, Posso Sentir” é uma frase intensa e que traz um novo formato do meu livro. O consumo de “Sra. Capa” em audiolivro traz a particularidade e a participação das mulheres com baixo letramento ou com alguma deficiência visual. É um leque que eu abro de público-alvo e de mulheres que eu escolho dividir minhas palavras. Eu torço para que essas mulheres consigam refletir sobre suas capas, vulnerabilidades e o que sentem. Escutar “Sra. Capa” traz pertencimento para todas e a certeza de que não estão sós. Prevenir a depressão, falar sobre a importância das relações e de nossos sentimentos precisam fazer parte da vida de cada vez mais pessoas. Trazer essa realidade e ter a chance de proporcionar essas reflexões é o meu maior desejo. Também espero que o acesso ao audiolivro abra caminho para o consumo de novas histórias, informação e entretenimento.
A rotina das mulheres atarefadas é um dos focos do livro. Qual mensagem deseja transmitir a essas mulheres por meio da narrativa?
Sempre peço para minhas leitoras “tirar a capa para lavar”. É um jeito diferente de falar: descanse, não precisa dar conta de tudo e pause; por favor, pause! A sobrecarga e papel que assumimos como mulher é tão automático e romantizado que não damos atenção. Meu maior objetivo é trazer a consciência dessa capa que carregamos. Brinco que não conseguimos tirá-la de vez, mas precisamos ter ciência do seu uso e de quando escolhemos usar e claro, de pedir ajuda sempre que necessário.
Como sua trajetória profissional influenciou a escrita de Sra. Capa e o seu compromisso com temas sociais?
Acredito que a minha trajetória como filha, mulher que teve depressão por mais de quinze anos, de esposa, mãe e mulher que sonha em mudar o mundo foi o que me trouxe até aqui. Trabalhei com moda por quase duas décadas, amava o meu trabalho, mas percebi que meus valores não condiziam com o segmento e meu novo momento. De fato, fui uma Sra. Capa por muitos anos na minha caminhada profissional, mas foram minhas observações e vontade de falar sobre depressão que deram base para o meu livro e me movem até hoje. Sobre o meu compromisso social, tenho certeza de que minha origem periférica, criação e observar minha mãe ajudando as pessoas me fizeram ter um olhar atento com temas sociais. Por muito tempo fui voluntária e responsável por doação de cesta básica, mas entendi que queria fazer mais. Hoje com minha fala e minha literatura contribuo de um jeito mais amplo para a sociedade e que me move e emociona sempre.
Já tem planos para novos projetos que continuem promovendo a inclusão e a conscientização social por meio da literatura?
Com certeza! Faço um trabalho de formiguinha com Sra. Capa em escolas públicas e pretendo continuar a trajetória para falar sobre saúde mental e tantas pautas que trago no meu livro. A ideia é seguir maior, conseguir parceiros e incentivo das secretarias de educação para levar minha fala e literatura para os jovens. Para o meu próximo livro e projeto, seguirei com a mesma estratégia de um público-alvo mais amplo, de levar meu livro para comunidades e claro, trazer assuntos de pouca visibilidade ou que precisam ser trabalhados de outra forma. Acredito que minha literatura sempre estará atrelada a algo maior. Um livro assinado por Fabiana C.O sempre terá assuntos para reflexão, uma literatura que busca ser acessível e democrática e que gere sentimento de pertencimento.
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