Em Um Instante d’ocê, a autora combina cultura brasileira e estética steampunk para explorar arte, amor e magia.

A premiada escritora Jadna Alana nos leva a um Brasil de outras eras em seu décimo livro, Um Instante d’ocê. Ambientado na histórica cidade de Ouro Preto, o romance une regionalismo fantástico à atmosfera steampunk para contar a história de Celina, uma pintora em busca de reconhecimento. Entre pactos, maldições e uma figura que surge de sua própria obra, a trama aborda as complexidades da arte, da criação e do papel da mulher no mundo artístico.
Nesta entrevista exclusiva, a autora fala sobre suas inspirações, desafios criativos e o significado de suas escolhas temáticas.

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Como surgiu a ideia de misturar regionalismo fantástico com a estética steampunk em Um Instante d’ocê?
Sempre considerei que essas estéticas combinavam de maneira fascinante, especialmente ao pensar no nosso país, em particular o Brasil do século passado. Há algo que inevitavelmente remete ao steampunk: os trajes de época, os cenários, a tecnologia limitada, mas com um toque que ainda soa futurista para o seu tempo.
Utilizo o steampunk como um conceito, sem colocá-lo no centro da narrativa. Ele permanece como um pano de fundo, visível nos trajes dos personagens, nas decorações e nos modos de vida da população ouro-pretana, com pouca interferência direta no desenrolar do enredo.
Por que escolheu Ouro Preto como cenário para a história e como essa cidade inspirou a ambientação da obra?
Na época, eu morava em Ouro Preto para fazer meu mestrado em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal de Ouro Preto. Fascinada com a cultura local, decidi que não haveria como eu sair dessa vivência sem transportá-la para minha ficção.
Escrevi o manuscrito em pontos turísticos da cidade, reparando na fala, no ritmo do sotaque e nos arredores. Assim, criei uma Ouro Preto que é aquela, mas também não é.
Celina é uma personagem em busca de reconhecimento como artista. O que ela representa na sua visão sobre o papel da mulher na arte e na literatura?
Celina nasceu para representar esse lugar do artista no mundo. Nela, coloquei dilemas meus. Para nós, mulheres, há sempre um degrau a mais, um caminho mais tortuoso.
Ao longo da trama, ela sofre para compreender seu papel no mundo como pintora, enquanto eu sofria para entender o meu como escritora. É uma obra profundamente metalinguística.
A relação entre Celina e Maria Doroteia mistura arte, amor e magia. Qual foi o maior desafio de criar essa dinâmica?
Sem dúvidas, a verossimilhança. Maria Doroteia, a mulher do quadro, sai da tela para viver seu amor na vida real. A dinâmica entre obra e artista às vezes me parecia maluca, mas no final fiquei muito satisfeita com esse enlace.
A narrativa traz um pacto e uma maldição como elementos centrais. Qual é a simbologia por trás dessas escolhas?
Tento fazer uma alegoria à venda do que é mais precioso para um artista. Celina cria sua obra mais bela, mas precisa entregá-la a um inimigo para cumprir um pacto.
Isso reflete a ideia de que artistas muitas vezes precisam sacrificar partes de si mesmos para alcançar reconhecimento.
Como foi o processo de pesquisa para incorporar elementos steampunk, como o automotor a vapor e a moda vitoriana, à trama?
Sempre amei essa estética, então a pesquisa foi natural. O que demandou mais tempo foi estruturar como isso se encaixaria com a cultura mineira. A moda vitoriana se mesclou com as vestes do período colonial.
Seu trabalho é marcado por uma forte valorização da cultura regional. Por que essa representação é tão importante para você?
Fui criada no interior do Nordeste, em uma cidade que nem estava no mapa. Sei como é estar à margem, ser esquecido e desvalorizado.
Minha literatura é uma ferramenta para mostrar que não existe só o Brasil de São Paulo e Rio de Janeiro. Nós temos vários “Brasis” e eles merecem seu espaço nas letras brasileiras.
Como sua formação acadêmica em Letras e Estudos da Linguagem influencia sua escrita e suas escolhas temáticas?
O conhecimento acadêmico me faz escolher bem as temáticas. Não quero apenas entreter, mas passar uma mensagem que produza impacto, reflexão e diálogo.
Já tem novos projetos ou ideias para continuar explorando o gênero steampunk ou o regionalismo fantástico?
O steampunk talvez volte em outro momento, mas o regionalismo fantástico continuará sendo explorado. É o tema da minha pesquisa acadêmica e da minha carreira como escritora. Meu próximo livro será nordestino e abordará uma figura importante do imaginário local.
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