Autoras do livro Enquanto Você Toca – Guia Comentado e Biografia Coletiva do Showbusiness, compartilharam o universo por trás do entretenimento ao vivo.

Em Enquanto Você Toca – Guia Comentado e Biografia Coletiva do Showbusiness, Fabiana Lian e Juliana Negri de Mello trazem uma visão profunda e inspiradora do showbusiness brasileiro. A obra, lançada pela editora Plataforma9, compila 10 anos de experiências da On Stage Exp, escola referência no setor, e é enriquecida com as contribuições de mais de 30 profissionais que compartilham suas histórias e perspectivas sobre os bastidores da indústria.
Celebrando os desafios e as conquistas de uma década, o livro explora temas como a necessidade de adaptação de práticas globais à realidade local, a valorização da diversidade e inclusão no mercado, e a importância da profissionalização em um setor em constante transformação. A seguir, confira a entrevista exclusiva na íntegra com as autoras, que falam sobre o processo de criação, os aprendizados e as expectativas para o futuro do entretenimento ao vivo no Brasil.

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O que as motivou a compilar 10 anos de experiência da On Stage Exp em Enquanto Você Toca?
Fabiana: Acho que foi uma boa maneira de celebrar os nossos 10 anos. Foi um jeito de olhar para nosso material construído nesse período, atualizar, rever, criticar. Fizemos, ao longo desses anos, um trabalho consistente com quase nada de material disponível, formando muitas pessoas para esse mercado. E o livro é uma maneira muito rica de ampliar esse conhecimento para além das nossas salas de aula ou espaços de conversa.
Como foi o processo de reunir mais de 30 profissionais e suas diferentes perspectivas para a obra?
Fabiana: Eu já era bastante conectada no showbusiness por conta dos meus anos de turnês, mas a On Stage Exp ganhou muita atenção de atores importantes do mercado internacional.
Pessoas que trouxemos para a sala de aula, ou que entenderam a relevância do trabalho que estávamos desenvolvendo. E do nosso lado, somos uma espécie de observatório e pesquisamos cases o tempo todo.
Escolhemos trazer quem vimos fazer história, ou quem sabíamos que traria uma perspectiva interessante para o livro. Durante o processo, precisamos tomar decisões, mudar caminhos, fazer novos convites, fazer escolhas difíceis em alguns momentos.
Foi desafiador também para a edição. Afinal, são todos “bichos de palco” e não bichos da escrita. Mas é muito bom ler textos em que você pode ouvir a voz da pessoa no backstage, em uma conversa profissional, mas íntima.
Olhando os relatos percebi que é difícil classificar essas pessoas, pois elas são técnicas, especialistas em coisas muito cartesianas até muitas vezes, mas são pessoas que trabalham com algo intangível e poderoso de provocar emoções em uma experiência tribal que é um show.
É um privilégio e isso talvez explique porque todo mundo adora trabalhar nisso.
Por que acreditam que a profissionalização e o compartilhamento de conhecimento são essenciais para o showbusiness brasileiro?
Fabiana: A imagem de trocar o pneu com o carro andando é boa para descrever o que aconteceu com essa indústria. A partir do ano 2000, ela foi se desenvolvendo muito rápido. E todo o conhecimento empírico compartilhado com quem ingressou foi modificado também, pois muitas tecnologias avançaram, prioridades mudaram, novos players apareceram.
Não havia muita sistematização desse conhecimento. E o mercado continua crescendo e trazendo novidades o tempo todo. As pessoas precisam ter atalhos para chegar mais prontas em um universo que tem muita demanda de profissionais.
Juliana: Eu acredito que a cadeia produtiva da música vive em constante evolução, o que exige preparo técnico, criatividade e capacidade de adaptação e reciclagem por parte dos profissionais. No Brasil, ainda enfrentamos muitos desafios estruturais, como a falta de investimento em capacitação profissional e a informalidade em algumas áreas. Quando promovemos o acesso à informação e à capacitação, criamos um ecossistema mais sólido, que não só gera empregos, mas também entrega produtos culturais mais impactantes e de qualidade.
Vocês mencionam a necessidade de adaptar práticas globais à realidade local. Quais foram os principais desafios nessa adaptação?
Fabiana: Podemos falar que showbusiness é uma língua universal, que vai ter sotaques diferentes nos diversos cantos do mundo.
Um show de padrão internacional (até como o do Titãs em 2023 e Caetano e Bethânia agora, para não ficarmos falando só de gringo) vai repetir uma mesma apresentação em qualquer cidade que for. Mas enfrentará desafios diferentes em uma cidade onde as pessoas têm menos expertise ou menos equipamentos.
Além disso, temos questões estruturais. O Brasil tem custos altos para a parte técnica e de logística. Por isso, temos que fazer sempre uma adaptação orçamentária, por exemplo. Há principalmente uma adaptação cultural, um entendimento do ritmo e das prioridades de cada projeto.
Mas eu acho que o Brasil tem também bastante a ensinar, sabe? Nós fazemos, por exemplo, live marketing em festivais como poucos países fazem. Além do que, nossa mão de obra é muito bem vista. Temos profissionais que estão em turnê com as principais bandas do mundo.
Juliana: O maior desafio é encontrar um equilíbrio entre os padrões globais de excelência e as particularidades culturais, econômicas e sociais do Brasil. Muitos modelos internacionais são baseados em orçamentos e estruturas que nem sempre temos aqui. Foi necessário para o mercado nacional criar soluções criativas, respeitar nossa identidade cultural e, ao mesmo tempo, buscar eficiência.
Além disso, a falta de infraestrutura em algumas regiões do país e a concentração de oportunidades em grandes centros urbanos também exigem esforços extras para democratizar os processos de produção.
A inclusão de vozes femininas e de grupos sub-representados é um destaque no livro. Por que essa representatividade é tão importante para vocês?
Fabiana: Graaaaaças a Nossa Senhora do Rock N Roll (acho que é a Janis Joplin), hoje as mulheres ocupam lugares de poder nos negócios e na produção, embora ainda haja os clubinhos de meninos, como na área técnica.
Ainda há no mercado de shows internacionais um reflexo do que vemos na sociedade: Machismo, etarismo, racismo, transfobia e elitismo.
Há muitos anos atrás, quando estava em uma conferência em Londres, ouvi a Emma Banks, que é uma agente muito respeitada, falando que ia ficar tudo bem com relação à inclusão das mulheres, mas que ela só recebia em seu escritório pessoas de classe média alta, e isso precisava mudar. O Brasil repete isso nos shows internacionais. Somos um mercado de pessoas que tiveram acesso a boas escolas, networking, ensino de línguas.
Tem um trabalho sério pela frente: Fazer com que pessoas de diferentes credos, classes sociais, gêneros e raças não só entrem, mas se sintam pertencentes aqui.
Juliana: A representatividade feminina em nosso mercado e em nosso país é crucial. Tanto arte quanto o entretenimento têm o poder de mexer com a opinião pública e influenciar a sociedade.
E pessoalmente para mim, vai além: a música tem superpoderes do ponto de vista semiótico e de gerar grandes catarses coletivas. Quando damos espaço para vozes diversas, enriquecemos as histórias contadas e criamos um ambiente mais justo e inclusivo. Para mim, não é só uma questão de justiça social e também de inovação: quanto mais olhares diferentes trouxermos para o palco e para os bastidores, mais criativos e conectados ao público seremos.
E as mulheres sempre deram um olhar diferenciado, personalizado e carregado de empatia para todo o processo de produção. Por isso, merecem grande destaque.
Qual é a principal mensagem que desejam transmitir às novas gerações de profissionais do entretenimento?
Fabiana: Sejam visíveis. O que sofremos com a pandemia, onde perdemos pessoas para a doença, ou que simplesmente foram fazer outra coisa da vida por serem invisíveis para políticas públicas, por exemplo, nos ensinou que precisamos dar visibilidade para o roadie que afina a guitarra do artista no palco e para quem está cuidando do camarim, da porta e da logística.
Essa é uma área que exige muita responsabilidade das pessoas, e temos muito pouca articulação, garantias, etc.
As novas gerações precisam entender o valor do trabalho delas, fazer junto, e pleitear por boas práticas, processos, regras, políticas públicas.
Juliana: Eu, que comecei nessa vida como fã e pulei pro outro lado da barricada, quero que as novas gerações entendam que o showbusiness não é apenas glamour, mas uma combinação de paixão, trabalho árduo e estratégia.
É preciso estudar, se capacitar e estar disposto a inovar. Ao mesmo tempo, desejo transmitir que há espaço para todos, e que a diversidade de ideias e talentos é o que torna essa indústria tão vibrante e transformadora.
Como enxergam o futuro do showbusiness no Brasil e quais mudanças esperam ver nos próximos anos?
Fabiana: Acho que esse crescimento vai continuar. Provavelmente teremos uma acomodação daqui a um tempo. Espero que a gente consiga endereçar as questões de diversidade e visibilidade que precisamos.
Juliana: O futuro do showbusiness no Brasil é promissor, especialmente com o avanço das tecnologias digitais e o crescimento e profissionalização do mercado de entretenimento ao vivo.
O que eu desejo é ver uma descentralização da produção cultural, com mais oportunidades fora dos grandes centros urbanos e, claro, com mais promotores independentes.
Também acredito que veremos mais mulheres e pessoas de grupos minoritários em posições de liderança, além de um maior compromisso com práticas sustentáveis.
Nosso país é imenso, cheio de oportunidades de crescimento cultural. Temos as melhores cabeças pensantes e muito espaço para crescer dentro do entretenimento ao vivo. Precisamos apenas nos manter organizados numa frente que realmente age pelas mudanças e evolução do nosso mercado.
Há novos projetos ou iniciativas da On Stage Exp que gostariam de compartilhar?
Fabiana: Eu gostei desse negócio de livro. Fiquei achando que pode ter muito mais coisa legal para publicar. Esse projeto foi fruto de um edital do Estado, o Proac 45/23, por isso consegui fazer com tanta gente. Sei que sem isso os desafios serão outros. Mas eu acho necessário. Tem bastante gente pensando no entretenimento ao vivo.
Quanto à escola, estamos atuando em cidades fora de São Paulo, e provavelmente faremos uma edição em outro país em breve.
Seguimos também com nossas imersões e consultorias em empresas e queremos montar grupos de pesquisa para começarmos a olhar seriamente para nossos problemas na indústria.
Juliana: Sim! Para além do projeto do livro, nossos cursos continuam e devemos expandir nosso alcance no mercado e em outras áreas do entretenimento ao vivo que ainda não chegamos.
Os novos projetos já estão “cozinhando” e tenho certeza de que o mercado continuará se surpreendendo com nossa capacidade de trazer novas soluções para a cadeia produtiva da música, especialmente em termos de pesquisa.
É um momento muito empolgante para nós, e acreditamos que essas iniciativas podem gerar mudanças significativas no setor.
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