“À Beira do Araguaia” – Um retrato poético e social da cultura ribeirinha.


No livro “À Beira do Araguaia”, Francisco Neto Pereira Pinto utiliza sua vivência e memórias para retratar a vida das comunidades ribeirinhas e os desafios enfrentados por elas. Por meio de uma coletânea de 14 contos interligados, o autor aborda questões como destruição ambiental, racismo, saúde mental e as tensões entre tradição e modernidade.

Durante nossa entrevista, Francisco destacou que “a literatura pode lançar luz sobre aspectos da vida concreta que são invisíveis ou incômodos”, reforçando o papel transformador de sua obra. Ele também explicou como a linguagem poética e regionalista ajudou a construir um retrato autêntico das histórias e resistências do povo ribeirinho.

Na entrevista abaixo, o autor compartilha detalhes sobre a criação do livro e as mensagens que espera transmitir aos leitores.

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Confira a entrevista:


Como a sua vivência à beira do Rio Araguaia inspirou a criação dos contos presentes no livro?

Todos os contos foram inspirados em minhas vivências à beira do Rio Araguaia, onde cresci até meus quinze anos. Depois de me mudar para o Tocantins, para estudar e trabalhar, continuei frequentando a região, porque minha família continuou morando lá, e até hoje há familiares vivendo no mesmo lugar. O conto A ponte, por exemplo, se concentra na expectativa da população do Vale das Serras em relação à construção de uma ponte sobre o Rio Araguaia, que ligaria os estados do Pará e Tocantins. Coloca em evidência a crença da população ribeirinha de que os grandes projetos de modernização podem significar desenvolvimento econômico e social.

Porém, quando esses projetos se materializam, essas expectativas se transformam em desilusão, porque geralmente os realmente beneficiados nunca são as populações ribeirinhas, mas outros atores alheios às realidades ribeirinhas. Outro conto, A grande cheia, aborda o mito da cobra grande, tão popular entre os povos que habitam às margens dos rios. Já a narrativa Álbum de fotografia nos envolve em descrições sobre as comidas, danças e costumes relacionados aos casamentos tradicionais. Poderia mencionar, ainda, a estória de Pedro ainda menino, em De barco pelo rio, que nos conduz por uma viagem encantadora pelo Araguaia, com suas matas ciliares, os moradores das águas, um céu enorme orientando de cima o barco deslizando sobre a superfície líquida e o rio, como um grande rasgo na imensa paisagem da floresta amazônica.

Quais são os principais desafios enfrentados pelas comunidades ribeirinhas hoje e como o livro busca dar voz a essas questões?

Acredito que um dos maiores desafios dos povos ribeirinhos é serem vistos e tratados como sujeitos, comunidades e povos enquanto um fim em si mesmos, e não como meios para interesses de outros – a serviço dos empreendimentos governamentais e privados que não visam realmente o bem-estar das comunidades locais, mas sim o chamado bem geral ou até mesmo de outras regiões. Necessário, portanto, que lhes sejam facultados direito à autodeterminação e dignidade de usufruto da cidadania plena, como todo o restante da nação. Quando respeitados em sua diversidade, singularidade e dignidade, as políticas públicas, os incentivos e todos os cuidados que lhes são endereçados os colocam como protagonistas de suas vidas e de seus destinos. Esse é um grande desafio porque, como os demais povos tradicionais, os ribeirinhos têm sido ao longo do tempo alijados dos seus direitos e, em muitos casos, expropriados de suas vidas, tanto em sentido simbólico quanto literal. No livro, diversas dessas realidades são colocadas como temáticas, tais como o impacto da agropecuária, do agronegócio, do turismo ambiental e de projetos governamentais sobre a fauna e a flora locais e o consequente assoreamento do rio. Além disso, há a pesca predatória, o saldo da Guerrilha do Araguaia sobre as comunidades locais, a luta das mulheres pelo protagonismo de suas vidas, o racismo estrutural e seus reflexos nas relações dos ribeiros com as sociedades urbanas etc.

A coletânea aborda temas como destruição ambiental, racismo e saúde mental. Por que era importante trazer essas temáticas para a literatura?

O crítico brasileiro Antonio Candido dizia que a literatura é poderoso instrumento de humanização, isso porque ela pode exprimir algo da nossa vivência para a qual ainda não tínhamos palavra. Por meio da literatura, podemos nos conhecer e reconhecer melhor. Além disso, essa coletânea pode sensibilizar leitores do Brasil inteiro para formas de existências e problemas pontuais que configuram a realidade de muitos sujeitos, comunidades e povos ribeirinhos. Esses temas apontados por você, e outros aos quais já me referi vinculam o livro a realidades específicas dos ribeirinhos. Todas as estórias são ficção, mas poderiam ser realidades, e é exatamente por isso que a literatura pode lançar luz sobre aspectos da vida concreta que são invisíveis, ou incômodos, ou que não queremos ver. Nesse sentido, a literatura, mais do proporcionar prazer estético, também pode atuar como instrumento de sensibilização e convencimento de mentes e corações e, talvez, motivar transformações na vida vivida, possibilitando sonhar com realidades melhores.

Qual foi a importância da linguagem poética e regionalista na construção dos contos?

Rolando Barthes dizia que a literatura é sal da língua. A medida certa de sal é importante para o bom sabor da comida. Quando comecei a escrever À beira do Araguaia, tinha em mente um projeto, e é exatamente por isso que todos os personagens principais são os mesmos nas quatorze narrativas – Ana, Pedro, e seus dois filhos, Téo e Eve, com seus dois gatos, Dom e Calíope. O cenário também o mesmo, o majestoso Araguaia com sua cachoeira e suas muitas formas de vida, ladeado por exuberantes paisagens. No alto de uma ribanceira, em uma casinha construída por Pedro, moram ele e sua família. A partir da sacada, eles podem contemplar as águas do Araguaia e as matas do lado de lá, para além da outra margem, representando outras culturas, outras realidades, porque os ribeirinhos não estão, de todo, isolados. Eu gostaria que o leitor, a leitora, tivesse uma experiência extraordinária de leitura com À beira do Araguaia. Por isso, o livro foi pensado de capa a capa para proporcionar o prazer estético, a fruição artística e o encantamento da palavra. Talvez por isso, a linguagem literária empregada no livro já tenha sido comparada à de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Quanto à abordagem regionalista, Antonio Candido já dizia que, enquanto houver desigualdades sociais e descaso e abandono das minorias e dos vulneráveis, haverá regionalista. Acredito que essa verdade se aplica À beira do Araguaia.

Como você enxerga a relação entre tradição e modernidade na vida ribeirinha retratada na obra?

Essa relação é bem interessante, e foi destaca pela Profa Dra Neide Luzia de Rezende, que escreve o texto de apresentação do livro. Por exemplo, a culinária da região está presente em vários contos e, inclusive, algumas receitas são descritas em detalhes. Uma colega, professora universitária, assim que leu a coletânea me disse que já ia praticar algumas das receitas, que chegam a dar água na boca. Por outro lado, Ana gosta de tomar vinho e é uma leitora voraz e profunda conhecedora dos clássicos da literatura brasileira e está sempre atenta ao que está sendo lançado no mercado literário. Esses dois exemplos ilustram bem como o livro trabalha a tensão e a confluência entre tradição e modernidade.

Que impacto espera causar nos leitores ao retratar a cultura e a resistência dos ribeirinhos?

Além de proporcionar uma deliciosa experiência de leitura, sensibilizar para o fato de que as vidas ribeirinhas IMPORTAM.



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“O livro caindo n’alma / é germe – que faz a palma / é chuva – que faz o mar.”

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