Autor independente de Pelotas/RS reflete sobre solidão, crítica social e a luta para viver da literatura.

Marcelo Nascente é um exemplo de resistência literária em tempos adversos. Com 15 obras publicadas de forma independente, o autor pelotense transforma desafios pessoais e sociais em arte, equilibrando reflexão íntima e crítica social. Sua trajetória começou cedo, aos 14 anos, com a publicação de textos em jornais, mas foi em meio a crises financeiras e a perda da mãe que sua escrita se tornou um mecanismo de sobrevivência e expressão.

Em entrevista ao Livros N’alma, Marcelo compartilha como a solidão, o isolamento e sua visão crítica da sociedade moldaram sua produção literária. De textos poéticos a crônicas afiadas, ele aborda temas como amor, desencanto e resistência, sempre com o objetivo de provocar reflexão.

O autor também discute os desafios do mercado editorial brasileiro, sua opção pela independência e os altos e baixos de divulgar seus livros diretamente aos leitores. “Meu sonho é simples: viver da minha escrita e alcançar mais pessoas com minhas palavras”, afirma.

Leia a entrevista completa e descubra mais sobre a trajetória de Marcelo Nascente, um escritor que faz da literatura uma ferramenta para transformar dores e inquietações em inspiração.


COMPRE OS LIVROS DE MARCELO NASCENTE: (53) 999127949 (WhatsApp)


Leia a entrevista:

Sua trajetória como escritor começou cedo, aos 14 anos. Como você percebe a evolução da sua escrita desde essa época até os livros atuais?

Então… Tenho um irmão, nove anos mais velho que já escrevia poesia à época. Aos 14 anos foi a idade em que descobri Beatles, então resolvi datilografar (sim) minhas impressões sobre o álbum Sargeant Peppers e enviar ao jornal Diário Popular. O texto foi dividido em duas partes e “ganhei” duas contracapas inteiras do jornal, algo que era bem difícil de se conseguir.

A partir dai aconteceu o que creio acontecer com quase todos que começam a escrever suas próprias histórias e poemas – anotá-las em cadernos. Creio que foi um fluxo natural ir aprimorando tanto as formas poéticas, como vocabulário. E com a maturidade, depois de ter trabalhado em vários jornais, agências de publicidade e editoras, criei “coragem” de me expor.

Vejo minha evolução como uma busca por um estilo próprio. Então meus livros vão de aforismos a poesias, de crônicas a contos. Todos têm em comum aspectos que julgo fundamentais a quem se propõe a escrever: serem “crus”, nenhuma escrita de “plástico”. Trato muito sobre temas como amor, solidão, comportamento humano e cotidiano.

Ainda tenho cinco em andamento, simultaneamente (outra mania minha), que serão lançados em breve. Como peculiaridade, me utilizo muito do sarcasmo, da dubiedade, da proposta de começar um pensamento em mim e terminar no leitor.

Você mencionou que escrever é uma forma de manter a sanidade. Como a escrita ajudou você a enfrentar momentos difíceis, como a perda de sua mãe e os desafios financeiros?

Durante os quatro anos do desgoverno fascista que nosso país teve que suportar, tive que sair do jornal no qual trabalhava há seis anos, entregar o apartamento que alugava e passar a morar com minha mãe (à época com 82 anos). O cataclismo da pandemia e a inércia assassina de tal governo (que poderia ter colaborado para diminuir em tempo e em mortes seus efeitos) obrigou a todos um isolamento jamais vivido. Ao menos em nossa era…

Por trabalhar desde os 12 anos de idade, naquele período virei um leão (coincidentemente meu signo) enjaulado, acuado, cuja única alternativa era buscar freelas como revisão de textos, diagramação de materiais e afins, em home office. O que, em Pelotas, era raro. Na maioria das vezes, os freelas que me entravam eram de contatos que ainda mantinha dos cinco anos em que morei em São Paulo e fui editor-chefe da Editora Zap.

Infelizmente a demanda foi diminuindo, até chegar ao ponto em que eu não tinha receita alguma. Como tinha muito material próprio guardado, decidi arriscar usando as armas que possuía. Vender os livros em forma de e-book era o mais óbvio e com possibilidades de retorno mais rápida.

Havia a possibilidade de tentar vendê-los em plataformas como, por exemplo, Amazon, mas preferi fazer da minha forma e oferecer aos meus contatos (conhecidos e desconhecidos) um a um. Para minha surpresa, os quatro ou cinco primeiros tiveram uma aceitação grande (dada a forma como foram feitos).

Nesse processo foi perceptível que pensamentos curtos e poemas eram a “receita” ideal, por serem de leitura rápida. Outro ponto que acho interessante citar é o de que 90% ou mais dos leitores eram do sexo feminino.

Mas havia algo que me incomodava, por dentro: me sentiria uma “fraude literária” se continuasse a mesma “receita”. Por ideologia mesmo, jamais conseguiria escrever quaisquer bobagens curtas e óbvias, somente pelo dinheiro.

Com a passagem de minha mãe, produzir acabou se tornando uma espécie de mecanismo de defesa e, ao mesmo tempo, uma forma de continuar “subvivendo”, mesmo consciente de que haveria um momento em que, escrevendo outros formatos literários, certamente venderia menos.

Para mim, cuja mente veio “de fábrica” com algum tipo de defeito nas sinapses, sempre precisei lidar com várias percepções, ideias e assuntos diferentes, concomitantemente; por isso, em tal situação, digamos, desesperadora (financeiramente, profissionalmente e também administrar o luto, tudo ao mesmo tempo) escrever virou uma espécie de patologia. Até hoje minhas paredes da casa estão repletas de frases, poemas, desabafos…

É extremamente árduo o trabalho mental necessário para fazer-se sentido, quando se pensa em excesso. Principalmente a mim, que nunca tive nenhuma disciplina. Escrevia durante as madrugadas e a cada e todo instante em que estivesse acordado. Devo ter perdido um tanto de sanidade, mas poderia ter sido muito mais…

Nos seus livros, há uma combinação de reflexão pessoal e crítica social. Como você escolhe os temas e o tom dos seus textos?

Minha visão sobre a sociedade, como um todo, já vem comigo desde cedo. Sempre me envolvi com política de alguma forma, desde a época do movimento estudantil. Além disso, tenho para mim, ser uma obrigação do artista posicionar-se perante as questões que afetam milhões de pessoas, ou seja, não rezar o “Euvangelho de São Umbigo”…

E com o que fomos obrigados, como brasileiros a sofrer (que nunca se esqueça: 700 mil mortos e a legitimação da crueldade, que de forma apavorante, nos mostrou que muitos entre os “nossos” sempre foram maus, apenas se sentiram à vontade para ter orgulho da estupidez, burrice e maldade) não existe como não se trazer à tona o tema “sociedade”. Quem são estes? Estamos cercados! E em um nível surreal. Me utilizo, em meus textos, de alguns subterfúgios, por assim dizer, para escrever de uma forma que estimule ao raciocínio. A escolha de palavras, de formas de chegar até mesmos aos preconceituosos convictos, os odiosos e suas diversas correntes.

Em alguns textos abuso do sarcasmo, como se fora uma lança a atacar – e provocar -; em outros “falo” de forma mansa, repleta de uma ingenuidade que carrega um tanto de veneno nos bolsos. Meu objetivo é sempre encontrar “novas” formas de chegar a alguém que esteja disposto, ao menos, a notar que todos somos capazes de pensar sobre as tantas incoerências, tabus e injustiças tidas como “padrão” há milênios.

Quanto à reflexão pessoal é algo básico necessário ao ser humano. No espiritismo, como um exemplo somente, é definido como “reformas íntimas”. Sabemos ser impossível mudar a outrem, mas a nós mesmos, temos a obrigação. É questão de evolução. O maior problema – a meu ver – é que raros estão dispostos a pensar sobre si mesmos e seus conceitos, sobre as “heranças malditas” que recebem e a seguem repetindo, até morrer.

Acho válido e até necessário, que existam os escritores que falam sobre a grama verde, o céu azul e coisa e tal; mas para existir um equilíbrio, penso que também são necessários os que avisem que poesia não é “emplastro Sabiá”… Sou um destes.

Descubra mais sobre Livros N'alma

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo