Autor independente de Pelotas/RS reflete sobre solidão, crítica social e a luta para viver da literatura.

Marcelo Nascente é um exemplo de resistência literária em tempos adversos. Com 15 obras publicadas de forma independente, o autor pelotense transforma desafios pessoais e sociais em arte, equilibrando reflexão íntima e crítica social. Sua trajetória começou cedo, aos 14 anos, com a publicação de textos em jornais, mas foi em meio a crises financeiras e a perda da mãe que sua escrita se tornou um mecanismo de sobrevivência e expressão.
Em entrevista ao Livros N’alma, Marcelo compartilha como a solidão, o isolamento e sua visão crítica da sociedade moldaram sua produção literária. De textos poéticos a crônicas afiadas, ele aborda temas como amor, desencanto e resistência, sempre com o objetivo de provocar reflexão.
O autor também discute os desafios do mercado editorial brasileiro, sua opção pela independência e os altos e baixos de divulgar seus livros diretamente aos leitores. “Meu sonho é simples: viver da minha escrita e alcançar mais pessoas com minhas palavras”, afirma.
Leia a entrevista completa e descubra mais sobre a trajetória de Marcelo Nascente, um escritor que faz da literatura uma ferramenta para transformar dores e inquietações em inspiração.
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Leia a entrevista:
Sua trajetória como escritor começou cedo, aos 14 anos. Como você percebe a evolução da sua escrita desde essa época até os livros atuais?
Então… Tenho um irmão, nove anos mais velho que já escrevia poesia à época. Aos 14 anos foi a idade em que descobri Beatles, então resolvi datilografar (sim) minhas impressões sobre o álbum Sargeant Peppers e enviar ao jornal Diário Popular. O texto foi dividido em duas partes e “ganhei” duas contracapas inteiras do jornal, algo que era bem difícil de se conseguir.
A partir dai aconteceu o que creio acontecer com quase todos que começam a escrever suas próprias histórias e poemas – anotá-las em cadernos. Creio que foi um fluxo natural ir aprimorando tanto as formas poéticas, como vocabulário. E com a maturidade, depois de ter trabalhado em vários jornais, agências de publicidade e editoras, criei “coragem” de me expor.
Vejo minha evolução como uma busca por um estilo próprio. Então meus livros vão de aforismos a poesias, de crônicas a contos. Todos têm em comum aspectos que julgo fundamentais a quem se propõe a escrever: serem “crus”, nenhuma escrita de “plástico”. Trato muito sobre temas como amor, solidão, comportamento humano e cotidiano.
Ainda tenho cinco em andamento, simultaneamente (outra mania minha), que serão lançados em breve. Como peculiaridade, me utilizo muito do sarcasmo, da dubiedade, da proposta de começar um pensamento em mim e terminar no leitor.
Você mencionou que escrever é uma forma de manter a sanidade. Como a escrita ajudou você a enfrentar momentos difíceis, como a perda de sua mãe e os desafios financeiros?
Durante os quatro anos do desgoverno fascista que nosso país teve que suportar, tive que sair do jornal no qual trabalhava há seis anos, entregar o apartamento que alugava e passar a morar com minha mãe (à época com 82 anos). O cataclismo da pandemia e a inércia assassina de tal governo (que poderia ter colaborado para diminuir em tempo e em mortes seus efeitos) obrigou a todos um isolamento jamais vivido. Ao menos em nossa era…
Por trabalhar desde os 12 anos de idade, naquele período virei um leão (coincidentemente meu signo) enjaulado, acuado, cuja única alternativa era buscar freelas como revisão de textos, diagramação de materiais e afins, em home office. O que, em Pelotas, era raro. Na maioria das vezes, os freelas que me entravam eram de contatos que ainda mantinha dos cinco anos em que morei em São Paulo e fui editor-chefe da Editora Zap.
Infelizmente a demanda foi diminuindo, até chegar ao ponto em que eu não tinha receita alguma. Como tinha muito material próprio guardado, decidi arriscar usando as armas que possuía. Vender os livros em forma de e-book era o mais óbvio e com possibilidades de retorno mais rápida.
Havia a possibilidade de tentar vendê-los em plataformas como, por exemplo, Amazon, mas preferi fazer da minha forma e oferecer aos meus contatos (conhecidos e desconhecidos) um a um. Para minha surpresa, os quatro ou cinco primeiros tiveram uma aceitação grande (dada a forma como foram feitos).
Nesse processo foi perceptível que pensamentos curtos e poemas eram a “receita” ideal, por serem de leitura rápida. Outro ponto que acho interessante citar é o de que 90% ou mais dos leitores eram do sexo feminino.
Mas havia algo que me incomodava, por dentro: me sentiria uma “fraude literária” se continuasse a mesma “receita”. Por ideologia mesmo, jamais conseguiria escrever quaisquer bobagens curtas e óbvias, somente pelo dinheiro.
Com a passagem de minha mãe, produzir acabou se tornando uma espécie de mecanismo de defesa e, ao mesmo tempo, uma forma de continuar “subvivendo”, mesmo consciente de que haveria um momento em que, escrevendo outros formatos literários, certamente venderia menos.
Para mim, cuja mente veio “de fábrica” com algum tipo de defeito nas sinapses, sempre precisei lidar com várias percepções, ideias e assuntos diferentes, concomitantemente; por isso, em tal situação, digamos, desesperadora (financeiramente, profissionalmente e também administrar o luto, tudo ao mesmo tempo) escrever virou uma espécie de patologia. Até hoje minhas paredes da casa estão repletas de frases, poemas, desabafos…
É extremamente árduo o trabalho mental necessário para fazer-se sentido, quando se pensa em excesso. Principalmente a mim, que nunca tive nenhuma disciplina. Escrevia durante as madrugadas e a cada e todo instante em que estivesse acordado. Devo ter perdido um tanto de sanidade, mas poderia ter sido muito mais…
Nos seus livros, há uma combinação de reflexão pessoal e crítica social. Como você escolhe os temas e o tom dos seus textos?
Minha visão sobre a sociedade, como um todo, já vem comigo desde cedo. Sempre me envolvi com política de alguma forma, desde a época do movimento estudantil. Além disso, tenho para mim, ser uma obrigação do artista posicionar-se perante as questões que afetam milhões de pessoas, ou seja, não rezar o “Euvangelho de São Umbigo”…
E com o que fomos obrigados, como brasileiros a sofrer (que nunca se esqueça: 700 mil mortos e a legitimação da crueldade, que de forma apavorante, nos mostrou que muitos entre os “nossos” sempre foram maus, apenas se sentiram à vontade para ter orgulho da estupidez, burrice e maldade) não existe como não se trazer à tona o tema “sociedade”. Quem são estes? Estamos cercados! E em um nível surreal. Me utilizo, em meus textos, de alguns subterfúgios, por assim dizer, para escrever de uma forma que estimule ao raciocínio. A escolha de palavras, de formas de chegar até mesmos aos preconceituosos convictos, os odiosos e suas diversas correntes.
Em alguns textos abuso do sarcasmo, como se fora uma lança a atacar – e provocar -; em outros “falo” de forma mansa, repleta de uma ingenuidade que carrega um tanto de veneno nos bolsos. Meu objetivo é sempre encontrar “novas” formas de chegar a alguém que esteja disposto, ao menos, a notar que todos somos capazes de pensar sobre as tantas incoerências, tabus e injustiças tidas como “padrão” há milênios.
Quanto à reflexão pessoal é algo básico necessário ao ser humano. No espiritismo, como um exemplo somente, é definido como “reformas íntimas”. Sabemos ser impossível mudar a outrem, mas a nós mesmos, temos a obrigação. É questão de evolução. O maior problema – a meu ver – é que raros estão dispostos a pensar sobre si mesmos e seus conceitos, sobre as “heranças malditas” que recebem e a seguem repetindo, até morrer.
Acho válido e até necessário, que existam os escritores que falam sobre a grama verde, o céu azul e coisa e tal; mas para existir um equilíbrio, penso que também são necessários os que avisem que poesia não é “emplastro Sabiá”… Sou um destes.
Em obras como “Sem Eira Nem Beira” e “Tergiverso”, há um tom de desencanto com a sociedade e suas convenções. O que motiva você a abordar essas questões? É uma forma de resistência?
Como absolutamente todos meus textos, o livro Sem Eira Nem Beira fala sobre a realidade crua do que sinto. Sou eu, com as tripas expostas no balcão do açougue. O desencanto é parte do processo de resistência, sim. Assim como a esperança, a exteriorização da frustração de forma mais incisiva e ríspida. A motivação é sempre a mesma: a não aceitação de que somos, enquanto seres humanos, somente isso que estamos sendo. Sapiens sapiens que cospem pra cima…
A solidão e o isolamento são temas recorrentes em livros como “A Poética da Solidão”. Como essas experiências moldam sua produção literária?
A solidão foi um fantasma que descobri em 2017, depois de uma separação traumática. Sempre fui “casado”, desde os 20 anos. Então, viver a realidade de ser e estar completa, inteira e permanentemente só me causou um impacto que não imaginava. Como disse, meu universo particular está sempre ali, sem nenhum receio por me expor de tal forma. Um bom exemplo é o livro “Diários Noturnos”, que escrevi todo à caneta, em um caderno e luz de vela; pois tive a energia cortada por falta de pagamento e resolvi deixar assim durante o mês todo e ver que tipo de experiência (e sentimentos) sairiam disso.
Entre os seus 15 livros, há algum que você considera mais representativo da sua visão de mundo ou da sua essência como escritor? Por quê?
É interessante pensar sobre isso. Permito-me afirmar que minha essência como escritor está em cada um deles – e ainda nos que virão. Em “Amoração e Outros Neologismos Simplórios” e “Bilhetes com teu Nome”, escorre meu amor. Em “Eu sou eu e lido com isso – Uma autobiografia não autorizada”, confesso meus erros, desvios, inconsequências… Então, de uma maneira ou de outra, minha essência está em todos.
Tenho muito carinho pelo “Bula”, que traz um conceito explícito (inlusive na capa e projeto gráfico) de elencar pensamentos-remédio; não no sentido autoajuda, mas com o intuito de que o leitor chegasse a sua própria conclusão de qual “medicamento” (no caso atitudes, comportamento) é o melhor para si.
Um detalhe, que acho interessante comentar é que sou eu que faço tudo nos livros. Desde capa, editoração e textos. A ideia para o “Bula”, cujo formato é 12x12cm, era de imprimi-lo em capa dura, interior em papel pólen e fosse apresentado (e vendido) dentro de uma caixa feita especificamente para ele, exatamente como um remédio que se compra em uma farmácia. Infelizmente, por questões financeiras – e por editoras terem se tornado o que se tornaram -, para tornar factível tal projeto eu teria que dispor de valores que não tenho como alcançar. No entanto, e esta é a parte “engraçada” do mercado editorial atual, se eu pagar o livro é impresso como quero. Ou seja, pagando, eu poderia ser um poeta, um contista, um cronista, um romancista etc.
Participei de um concurso de poemas, sem ler o edital e tive um poema selecionado em primeiro lugar. Dias depois chegou um boleto de dois mil e poucos reais, pela “graça” de ter a obra escolhida publicada pela “editora”. Respondi por e-mail que podiam tirar o poema, pois se fosse pra pagar pra que fosse considerado um “poeta”, não desejava ser poeta…
Como você descreveria a relação entre a sua escrita e a cidade de Pelotas? Pelotas é uma inspiração ou um desafio?
Pelotas é uma cidade linda. Daqui saíram Lobo da Costa e Simões Lopes. Aqui mora Vítor Ramil… a arquitetura da cidade, seu clima peculiar proporciona tudo que é preciso para inspirar alguém a escrever. Tem uma tradição cultural muito grande, principalmente no passado. Hoje em dia, a meu ver, estamos muito aquém do que poderíamos. Não por falta de escritores com potencial, mas por estes não terem ferramentas capazes de sequer mostrarem que existem…
Temos um projeto de cultura anual, em que um ou outro (o importante é apresentar um projeto visto como “nos moldes” do edital, do que o livro, a criação, enfim) conseguem ter a impressão de seu livro paga com recursos municipais.
Temos também a feira do livro (anual), que é um evento bonito. Personalidades vêm, dão autógrafos e batem fotos com seus fãs. Os autores pelotenses que ainda são resistência – o que é admirável – não têm a mesma “sorte”. Não posso afirmar, mas tenho certeza de que autores locais vendem bem menos do que alguns vindos de fora e reconhecidos pela indústria cultural como best-sellers; mesmo que – minha opinião – sejam rasos em seus livros. Quiçá, algum dia, a literatura seja mensurada pela qualidade e não mais pelo “famoso” idolatrado por dizer o óbvio…
Para finalizar: certamente ser escritor em Pelotas é um desafio. Diria mais: mesmo que seja um ótimo escritor, dificilmente este será lido. A não ser que consiga o milagre de ser apreciado e reconhecido no centro do país. Aí, sim… Viraria um ídolo citadino.
Você optou por vender seus livros de forma independente, sem o auxílio de editoras. O que levou você a tomar essa decisão? Isso representa uma forma de liberdade criativa para você?
Não foi exatamente uma opção. Como expliquei anteriormente, era a única alternativa possível. Várias “editoras” receberam alguns de meus originais. E o funcionamento é simples: pague e terás o livro impresso como quiseres. Editoras “grandes” não recebem originais, pois não lhes faz sentido. A literatura é um produto, baseado mais no cálculo de rentabilidade de um nome do que propriamente no que está escrito. Mas é o normal do mercado, certo? O que é uma pena, pois muito ganharia a cultura do país em qualidade. Claro que existem formas alternativas que eu poderia ter tentado, como financiamento coletivo, por exemplo. Mas a vida real necessitava de resultados imediatos. Se o aspirante a escritor tem um emprego fixo, pode bem esperar seis meses para coletar o valor necessário para ter seu livro impresso. Mas se não tem, precisa fazer o que lhe está ao alcance e foi o que fiz. Muitas vezes acordar e olhar a conta bancária para ver se algum livro foi vendido, para comer naquele dia…
Sobre a liberdade criativa: não vejo outra forma de escrever. No entanto, se uma editora pagasse os custos de algum livro meu, se recebesse o suficiente para viver da escrita, me obrigasse a matar um personagem principal, por exemplo, talvez eu o fizesse.
Se me propusessem um contrato em que o valor pagasse um terreno no mato, uma cabana e um pouco de conforto, e para isso eu tivesse que escrever “o amor é um bichinho que rói, rói, rói”, por mim tudo bem. Só usaria outro nome, não o meu.
Maquiavelicamente falando, escreveria horóscopos, se isso vendesse, pois me possibilitaria continuar escrevendo minhas coisas. E pagaria impressão, distribuição e todo o resto, com o dinheiro ganho inventando horóscopo. Play the game.
Quais são os maiores desafios de ser um autor independente, especialmente na divulgação e venda das obras?
Não sei como responder a esta pergunta… são descomunais. Uma batalha hercúlea, onde muitas vezes pode ser humilhante. De forma geral é como pedir esmola. Claro que tenho alguns seguidores que sempre compram o que lanço. Uns por amizade, uns porque realmente gostam do texto. Mas de forma geral, se é só mais um a “incomodar”, como se estivesse pedindo algo e não vendendo um trabalho que foi pensado, criado para ser assim ou assado. Dizem que muitos autores nascem póstumos…
Você acredita que existe preconceito ou desvalorização do trabalho dos escritores independentes? Como você lida com isso?
Acredito que isso seja algo já enraizado na cultura do país. Penso que existem dois tipos de escritores independentes: o que tem o valor para pagar pela produção de sua obra, inclusive fazê-la impressa e os que não têm essa condição.
Além da questão básica da distribuição, desconheço a reação sobre a primeira possibilidade, pois ainda não imprimi nada. Mas penso que mesmo pago pelo autor, se impresso em uma editora com certo renome, é possível que seja aceito normalmente…
Quanto ao lidar com a questão: eu só escrevo e tento vender. Nesse caso acho sim, que não é considerado, nem levado a sério. Por enquanto só tento divulgar da forma que consigo – não sou especialista em redes sociais, nem pretendo ser. A oportunidade dada por vocês, para falar sobre meus livros é um presente inesperado, pelo qual agradeço imensamente. Como jornalista, mandei diversos releases para diversos sites e sequer recebi respostas. Então, esta é, na verdade, minha primeira “chance” de ser “ouvido”, o que me dá esperança de que o longo e tortuoso caminho que tenho feito, possa mudar de alguma forma. O que seria maravilhoso.
Você já tentou participar de seleções de programas culturais públicos ou privados para publicação de obras? Se não, por quê?
Não. Porque não tenho, digamos, capacidade (ou vontade, mesmo) de fazer um curso para aprender como se faz um projeto para tentar verba pública. Não tenho a menor intimidade (interesse ou motivação) para lidar com burocracia.
Profissionais da produção cultural, obviamente cobram para elaborar o projeto. Então voltamos ao fator de ser um escritor sem recursos monetários. Mas participaria, se dispusesse dos recursos necessários para contratação de um profissional da área.
No entanto, se se pensar sob o ponto de vista de que não há garantia de que, mesmo um projeto bem elaborado, vá ser aprovado – sendo realista, infelizmente existem fatores extra-normativos, por assim dizer – seria preciso dispor de um valor em aposta. Não sei jogar dados.
Como você faz para divulgar seus livros por conta própria? Quais estratégias e ferramentas você utiliza para alcançar novos leitores?
Olha… sou um péssimo vendedor. Não tenho mais tanta intimidade com a tecnologia como há alguns anos; percebo a obsolescência virtual pesar em mim, um pouco mais a cada dia. Descubro ferramentas, geralmente por alguém falar a respeito. Não tenho disciplina suficiente para dedicar tempo a entender hashtags, trend topics, insights, engajamentos…
Em resumo: sei que vivemos a era do do it all fuck yourself, mas nem todos têm as mesmas habilidades, muito menos todas juntas. Particularmente, não sei fazer quase nada. É fato! Converso com as plantas, mas não sei quantas vezes por dia preciso postar uma frase em um guardanapo, para atrair seguidores ou ser compartilhado, entende? Além disso, minha memória é péssima… o que quero dizer é que se a “fórmula” para alcançar leitores for, por exemplo, ter três frases diárias, dois sonetos e uma foto com cara estranha para postar; facilmente teria material disponível. Mas não tenho a menor ideia de qual é a “fórmula” ou o “app” do momento…
Então, a resposta curta à tua pergunta é: divulgação caótica, nenhuma estratégia e plataformas que ainda sou capaz de acessar minimamente.
Estar, agora, no Livros na Alma, é pra mim uma bela dádiva do universo, porque é a primeira vez em que tenho a oportunidade de ser “percebido” – não eu, os textos – fora de Pelotas. É interessante a experiência de ser entrevistado. Como jornalista, sempre estive do outro lado da mesa… E, para além disso, em termos de cultura, me traz esperança em relação ao futuro, a existência do site Livros N´Alma. Creio que posso dizer que somos, nós e tantos outros, resistência ao orgulho à ignorância que foi adubada durante os anos em que as trevas estiveram no poder.
Pode descrever como funciona o seu processo de venda dos livros em PDF? Como você gerencia pagamentos, envios e o contato direto com os leitores?
Tudo de forma absurdamente “artesanal”, intuitiva e direta com os contatos que tenho.
O Kindle Direct Publishing (KDP) da Amazon permite que autores independentes publiquem e vendam seus e-books em escala global. Você conhece essa plataforma? Já considerou publicar seus livros por lá? Por que isso seria ou não interessante para você?
Já ouvi falar, já considerei, mas como disse anteriormente, talvez realmente possa ser uma forma de venda, porém foge à minha “capacidade”, estudar os meandros do sistema… não tenho nada contra. Só não estou lá, com meus 15 livros, porque precisaria de alguém que tratasse da parte prática disto. Bem como para estar ativo, efetivamente, em redes sociais e outros sites de vendas similares,
Como você vê a relação entre tecnologia e literatura, especialmente considerando a venda digital e o contato direto com os leitores via redes sociais?
Vejo como fundamental. Huxley já havia previsto nossa época e, honestamente, acho que todas as ferramentas sejam úteis, desde que utilizadas de forma adequada.
Quanto ao contato direto com os leitores, é a parte que mais me agrada. Acho mágico alcançar o peito de alguém à distância e com palavras. Não se trata de ego, mas quando alguém, na rua, por exemplo, vem falar comigo e diz que leu tal livro e se identificou, a sensação é como um “consegui!”… o contato feito através das redes e, posteriormente, ao acaso, orgânico, tem um quê de ludicidade, a meu ver.
Existe alguma rede de apoio entre autores independentes ou você se sente completamente isolado nessa jornada?
Creio ser bem provável a existência de redes de apoio entre autores, no entanto, as desconheço, infelizmente. O sentir-me isolado é algo bem comum nos meus dias, mas em todos os sentidos, não só neste. Já conversou com alguém que se sinta à vontade para contar sobre sua vida a você e sentir vontade da “troca”, de ser ouvido também, mas perceber que muitos querem falar e poucos estão dispostos a ouvir? Há anos recebo mensagens de desconhecidos, na madrugada, pedindo conselho, ou só desabafando mesmo, que tornou-se comum a mim. Na verdade ouço a todos com atenção, porque aprendo com cada vida que ouço. E, além de expandir dentro de mim o conceito de empatia, volta e meia algum fragmento de histórias alheias, acaba fazendo parte de algum texto que produzo.
Acho que todos nos sentimos isolados, de uma forma ou de outra. Seja escrevendo um poema ou lavando a louça. Todos temos mãos, uns usam para dar tapas, outros para tirar alguém da areia movediça em que vive…
Na sua opinião, o público brasileiro valoriza a literatura independente? O que poderia mudar para facilitar a vida de escritores fora do circuito editorial?
Não posso afirmar que não valorize. Penso ser mais provável que não a conheça, não tenha acesso, por diversos fatores. A meu ver, tudo começa no se incentivar as crianças a libertarem suas habilidades artísticas. Tenho proposto, há dois anos – ano que vem pretendo continuar insistindo – a vereadores da cidade, que se crie um prêmio anual “Prêmio Escritor-Mirim Lobo da Costa” (explico: tenho muita identificação e admiração com o poeta, cuja obra ainda está longe de ser reconhecida de forma adequada pela cidade).
Para haver escritores é obrigatório que, antes disso, tenham sido leitores. No meu tempo de escola, por exemplo, Machado de Assis era retratado nos livros como um homem branco… E nunca nos foi dado sequer um texto produzido por uma escritora. Fui conhecer Hilda Hilst por volta dos quarenta anos.]
Ou seja, estruturalmente, o “formato” escolar ainda é incapaz de fornecer aos alunos a paixão por alguma disciplina, por mais que existam professores extremamente dedicados, o sistema os engole.
Mas, voltando… fora do circuito editorial existe todo um universo de autores ótimos Assim como, dentro do circuito editorial, existe muita baboseira… Poderia citar a Escola de Frankfurt, a teoria crítica e o conceito de indústria cultural; ou o belo e o grotesco enquanto característica estética; o que explicaria muitas convenções (ou estratagemas) ainda recorrentes hoje em dia, mas não creio que isso importasse a alguém… lembro que há poucos anos, houve, nas redes, um derrame de frases de Bauman sobre as relações líquidas. Frases de impacto compartilhadas por pessoas líquidas, em forma de crítica a outrem, sem sequer terem lido Bauman. Enfim… é o que temos.
Quais são as principais dificuldades em manter-se financeiramente apenas com a escrita? Há algo que tornaria essa jornada menos árdua?
Criar e vender-se (a obra) como subsistência, é um estar nu, transparemte, rasgado e remendado, em frente a um amanhã incerto. Ok, o amanhã é incerto a todos, no entanto, só os que pedem carona, os que “mangueiam” fazendo artesanato, os que sobrevivem, literalmente dia após dia, podem opinar sobre isso…
Não teria uma resposta para a segunda parte da pergunta. O que diria é que vejo espaço para todos e que a vida não é uma competição entre seres humanos. Talvez, a vista de determinado ângulo, demonstre que a cultura tenha sido deixada de lado, para que questões mais urgentes, o que é compreensível, dada a realidade dolorosa em que o país foi afundado…
A literatura é somente um dos aspectos da arte a não serem “levados a sério”. Não fosse assim, um artista seria considerado no “mesmo degrau” de um engenheiro ou de um advogado. Médicos salvam vidas, poetas salvam almas. Mas…
Em obras como “Tergiverso”, você aborda o desgaste nas relações humanas e o incômodo com conversas superficiais. Como você lida com o contraste entre o desejo de isolamento e a necessidade de ser lido?
Ótima pergunta. Lembra quando falei sobre manter o que resta de sanidade? Meu modo de lidar com as diferentes ondas de frequência emitidas pelas pessoas é tentar evitá-las. Numa ida, de casa ao centro da cidade, por exemplo, se cruza com pessoas que – sem perceber – descarregam o peso de seus mundos por cima de quem os ouve. É normal! Mas é desgastante ser esponja. Então criei uma espécie de filtros-escudos; raramente saio de casa e só recebo amigxs cuja conversa seja uma troca produtiva. Depois de décadas eu, um leonino por natureza extrovertido, optei em estar eremita.
Na verdade todos estão fugindo de algo – geralmente não percebem que deles mesmos – e essa fuga pode vir de incontáveis maneiras: seja através de comprimidos ou as chamadas drogas ilícitas, seja falando mal de alguém…
Todos somos viciados em alguma coisa: uns em dinheiro, outros em status, ou poder. O que diferencia estes dos que fogem de outras formas?
Quanto ao desejo de ser lido, é uma esperança quase lúdica… Quintana e Manoel de Barros foram geniais em vários aspectos, mas o maior de todos era sua capacidade de concisão. Como se previssem o futuro, o hoje de cento e poucos caracteres… e criaram universos com cinco ou seis palavras. Mesmo assim, pouco destaque têm em meio à enxurrada de besteiras que é idolatrada atualmente.
Quem lê Antero de Quental? Augusto dos Anjos? Leminski, Waly Salomão?
A cabana, os trezentos tons de cinza, café com Deus e seus genéricos são os best-sellers, não há muito mais a comentar.
Quais são os seus sonhos como autor? Onde você gostaria que sua escrita chegasse nos próximos anos?
Meu sonho da vida inteira é morar no mato, em uma cabana de madeira, com lareira e tapetes. Onde os vizinhos estejam a mais de cem metros de distância e tenha sinal de internet. E como autor, alcançar isso.
Trabalho minhas formas de escrita a cada vez em que sento para escrever. Quase nada do que escrevo acho suficientemente bom. Não sei nada do que escrevi “de cor”, para recitar. Por outro lado, às vezes me releio e fico surpreso por ter escrito tal coisa.
Mas o fundamental, como autor – a mim, ao menos – é tocar o perispírito de mais pessoas. Não tenho a ambição de convencer ninguém sobre nada, mas tenho a esperança de que algo do que diga, possa ser útil à evolução de alguém, de alguma forma.
Ah, sonho com uma Kombi Corujinha e um amor, também…
Se pudesse ter uma única conquista na sua carreira de escritor, qual seria?
O direito de ser eu e viver, efetivamente, do que faço. Não importa minha cara, meu nome… mas que escrever – assim como compor uma canção ou atuar numa peça de teatro – sejam vistos e valorizados, assim como financistas, CEOs etc.
Clarice Lispector publicou aos 56 anos, Victor Hugo, aos 60, Drummond aos 43. Vá que eu também possa…
Além da literatura, quais são os seus sonhos e objetivos pessoais?
Estudar e aprender tudo que me for possível; tornar-me cada vez mais manso, saltar de paraquedas, ser útil da forma que puder, a quantos puder.
Morar distante dos infernais barulhos, em uma cabana de madeira, estudar psicologia.
E, não nego, viver, ainda uma relação leve, madura e real.
Se pudesse deixar uma mensagem para seus leitores ou futuros leitores, qual seria?
Experimentem ler coisas diferentes, autores diferentes (tem muita gente boa, que não tem reconhecimento por não se encaixarem nos padrões enfiados goela abaixo por recomendações de editoras, modismos; e tantos outros estratagemas utilizados pela máquina “cultural”. Que percebam que a literatura não é marketing, capaz de tornar quaisquer baboseiras, como os mais vendidos. Afinal, o objetivo dos influenciadores é único: lucrar mais e mais. Sem importar-lhes a qualidade, mas quantos livros possam vender. Literatura rentável às editoras. O que é triste, injusto e que poda autores que pesam e fazem pensar…
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