Em “O Relato de um Ciborgue”, o autor autista reflete sobre inclusão e o impacto do vício em trabalho

Em O Relato de um Ciborgue, Felipe Gruetzmacher utiliza a ficção científica como uma lente crítica para examinar o vício em produtividade e a inclusão de pessoas no espectro autista no mercado de trabalho. A obra nos transporta para uma distopia onde uma megacorporação, Raion, desenvolve um chip que transforma humanos em ciborgues, eliminando a necessidade de descanso e convertendo toda a existência em trabalho incessante.
Por meio dessa narrativa provocativa, Felipe aborda questões atuais como a obsessão por resultados, a cultura das startups e a digitalização dos negócios. Além disso, a obra serve como ponto de partida para reflexões sobre a necessidade de inclusão e a valorização dos talentos neurodivergentes.
Nesta entrevista para o Livros N’Alma, Felipe compartilha suas motivações, seu processo criativo e suas perspectivas sobre o equilíbrio entre produtividade e humanidade em uma sociedade cada vez mais acelerada.

COMPRE O LIVRO: https://chk.eduzz.com/2456399
Leia a entrevista:
Felipe, o livro O Relato de um Ciborgue apresenta uma crítica contundente ao vício em produtividade. O que te motivou a explorar esse tema específico em uma narrativa distópica?
Quando era mais jovem, descobri que tinha aptidão para a escrita acadêmica. Tinha feito até uma pós-graduação em educação ambiental. Mesmo assim, não sabia qual mestrado fazer. Além disso, temia fazer um mestrado e não conseguir ingressar no mercado acadêmico, atuar com pesquisa científica. Na época, estava num emprego que não me realizava. Optei por empreender. Pagava para pessoas me ajudarem a montar modelos de negócios, pois tinha economias guardadas. Por fim, os projetos não deram resultado por falta de alinhamento de expectativas entre os consultores que eu contratei e eu. Estava perdido e sem apoio do ecossistema de inovação, Universidades, demais empreendedores e times.
Conheço a dor de pessoas sem rumo, propósito e que trabalhem demais somente para continuar desorientadas. Produtividade sem direção certa é um esforço investido que só trará dores de cabeça para as pessoas. Por isso, resolvi explorar esses meus dilemas ao escrever um livro que combina minha experiência como empreendedor frustrado e minha paixão pela leitura de artigos acadêmicos. Usei a ficção científica para que a história se torne mais atraente. Meu livro é muito mais uma crítica ácida contra nosso estilo de vida voltado ao trabalho excessivo. Espero que a leitura da minha obra seja sinônimo de libertação.
2. Você se identifica como autista e traz a questão da inclusão para o centro da discussão. Como sua vivência pessoal influenciou a construção da trama e dos personagens?
Minha vivência pessoal contribuiu para colocar o autismo no centro da discussão, acrescentar profundidade e camadas para os desafios enfrentados pelos protagonistas. Uma boa história explora vários lados de um conflito. Os personagens do meu livro, por exemplo, lidam com diversos aspectos dos dilemas apresentados pela história. Eles lidam com frustrações profissionais, desilusões amorosas, dificuldades para encontrar um emprego e o fato deles serem pessoas autistas. Todos os meus problemas vivenciados por mim estão presentes no livro.
Acredito que essa multiplicidade de conflitos enriquece a trama. Uma pessoa não é somente sua própria deficiência ou um mero diagnóstico. Somos múltiplos, somos plurais, apesar de colocar minha característica de pessoa autista no centro do debate.
3. A ideia de uma megacorporação como a Raion, capaz de transformar seres humanos em ciborgues, é assustadoramente atual. Essa visão é uma metáfora para o cenário corporativo contemporâneo?
Sim. A fantasia e as metáforas literárias são poderosas ferramentas para pensar a condição humana e as nossas tragédias. Uma vida inteira dedicada ao trabalho sem espaço para o ócio é um absurdo. A tecnologia que poderia ser usada para reduzir o tempo de trabalho se transformou numa ferramenta para transformar as pessoas em vítimas de empregos enfadonhos, sempre temendo o desemprego. Em virtude dessa situação absurda, nada melhor do que usar a própria ficção científica para desconstruir nossa crença no progresso e na ciência, assim como examinar nossa relação com o trabalho.
4. Quais são as principais mensagens que você espera transmitir aos leitores por meio dessa obra?
Quero estimular a reflexão sobre nossas inovações que tanto servem para gerar lucro a qualquer custo, desconsiderando possibilidades de usar as tecnologias para reduzir tempo dedicado ao trabalho. Trabalhar pode e deve ser uma atividade libertadora e que desenvolve habilidades, talentos e concretiza sonhos. Agora, o trabalho focado apenas em lucrar empobrece a qualidade de vida. A experiência qualitativa de trabalhar deve ser colocada como prioridade: o desenvolvimento da pessoa deve estar em primeiro lugar. Aspectos qualitativos como o lucro devem estar em segundo. Sei que é uma visão exageradamente romântica. Muitos podem me acusar de divulgar algo impraticável economicamente. Mesmo assim, esse fato precisa ser alvo de críticas e reflexões para pensarmos em alternativas. Por exemplo: oferecer trabalho que seja mercadologicamente viável, ético do ponto de vista ambiental e que não seja emocionalmente desgastante. O propósito do trabalho é oferecer sempre um desafio que possa despertar habilidades esteja num nível de dificuldade adequado para a pessoa. Excessiva facilidade desestimula. Excessiva dificuldade e riscos desencorajam a pessoa empreendedora.
5. A narrativa mescla ficção científica com reflexões acadêmicas. Como foi o processo criativo de combinar esses dois elementos na história?
Tenho aptidões para a leitura acadêmica. Consigo transformar ideias complexas em narrativas altamente engajantes. Por isso, uso a fantasia e a literatura para aproximar o público em geral das ciências. Meu processo criativo aconteceu baseado no meu compromisso de entregar verdades científicas mescladas com boa história.
6. Você acredita que a literatura é uma ferramenta eficaz para abordar e criticar os excessos do mundo corporativo e a busca incessante por produtividade? Por quê?
Eu nutro a esperança que a literatura baseada numa mescla entre ciência e boa história possa apoiar a conquista de uma visão crítica acerca do empreendedorismo. Ampliar a consciência crítica das pessoas é o dever dos livros. Por isso, creio muito no potencial transformador da literatura.
7. Quais foram suas maiores influências literárias ou culturais ao escrever O Relato de um Ciborgue?
O episódio “Insônia” do seriado Arquivo X. A história gira em torno de experiências governamentais para tornar soldados mais agressivos, privando-os do sono.
8. Durante a escrita do livro, houve algum momento particularmente desafiador ou surpreendente que você gostaria de compartilhar?
Na escrita, pude refletir sobre momentos particularmente desafiantes, como meu desgaste provocado por alguns empreendimentos que eu executei no passado. Refletir acerca do estresse pode apontar muitos caminhos para a maturidade emocional.
9. Como o público tem reagido ao livro até agora? Você tem recebido feedback de pessoas que se identificaram com a crítica ou com os temas de inclusão abordados?
Recebi poucos feedbacks até agora. Em virtude disso, penso que ainda não consegui atingir os canais de comunicação adequados. Só que continuo a comunicar minha obra, pois acredito no potencial do meu livro.
10. Por fim, pode nos contar um pouco sobre seus próximos projetos literários? Pretende continuar abordando temas sociais e futuristas?
Meu sonho é concretizar parcerias com professores universitários para aplicar histórias de ficção científica em sala de aula. Imagine: apresentar conteúdo acadêmico através de um formato instigante e dinâmico como a ficção científica para estudantes! Essa mescla de arte e ciência pode preparar nossos estudantes universitários para um futuro que se exige a combinação entre ciência e a criatividade para resolver problemas. Além da literatura, seria interesse aplicar a Mandala Ikigai em sala de aula: o Ikigai é uma ferramenta capaz de despertar o autoconhecimento nas pessoas. Pode ser uma ótima alternativa para guiar o crescimento profissional dos estudantes. Vi a entrevista de João Silveira, autor de “Tudo Faz Sentido” no site Livros N’alma. Talvez, concretizar uma parceria entre João Silveira e eu possa ser algo bastante inovador para a educação. Será que vocês teriam como me colocar em contato com ele? Ser apresentado para contatos sempre aumenta as chances de uma parceria acontecer…
Nota do editor: Estamos providenciando esse contato entre Felipe Gruetzmacher e João Silveira. Avisaremos assim que render frutos.
Deixe um comentário