Em “Clara & Vincent”, o autor revela o lado apaixonado e humano do pintor holandês.

Vincent Van Gogh é um dos artistas mais célebres e enigmáticos do século XIX, conhecido tanto por sua genialidade quanto pelas lendas que cercam sua vida tumultuada. Em seu mais recente livro, Clara & Vincent, o escritor Sérgio Corrêa nos convida a explorar um lado menos conhecido do pintor: o homem apaixonado, sensível e inspirado, longe da imagem do “gênio incompreendido”. A obra mistura ficção com eventos históricos para apresentar Clara, uma jovem arlesiana que se torna cúmplice e musa de Van Gogh durante um dos períodos mais criativos de sua vida.
Nesta entrevista exclusiva para o Livros N’Alma, Sérgio Corrêa compartilha conosco seu processo criativo, a pesquisa por trás da obra e a importância de lançar um novo olhar sobre a trajetória do pintor holandês. Acompanhe a seguir as reflexões do autor sobre arte, amor e a fascinante convergência entre realidade e imaginação.

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CONFIRA A ENTREVISTA:
1) Clara e Vincent propõe uma nova perspectiva sobre Van Gogh, aproximando o artista de um lado mais humano e apaixonado. O que o inspirou a criar essa abordagem?
Notei que, geralmente, as pessoas se referiam a Van Gogh como um louco que resolveu reproduzir em telas a forma absurda como o cérebro dele deformava a realidade. Ao observarmos os quadros anteriores ao período de Arles, vemos que ele pintava dentro dos padrões vigentes. Só quando resolveu romper com os paradigmas e colocar na tela o que via através de sua extrema sensibilidade é que passou a ser considerado excêntrico. A minha abordagem foi uma tentativa de mostrar que aquela excentricidade não era mais que uma explosão de liberdade de uma alma que passava a encontrar sua forma de se expressar.
2) No romance, você combina ficção com fatos da vida de Van Gogh, como foi o processo de pesquisa para construir essa narrativa?
A pesquisa foi exaustiva, não se entra em uma aventura com um dos artistas mais famosos e incompreendidos da história sem conhecer profundamente ele e o mundo em que viveu. Acredito que a leitura do livro “Cartas a Theo” tenha sido o que mais contribuiu para a minha compreensão da psique de Van Gogh. Esse livro é uma compilação de cerca de 600 cartas trocadas entre Van Gogh e o seu irmão Theo. As cartas foram coletadas e organizadas para publicação pela viúva de Theo, Joanna Van Gogh-Bonger, a pessoa responsável por dar ao mundo o conhecimento do até então obscuro pintor.
3) Como foi criar a personagem Clara? De onde veio a ideia para essa jovem arlesiana que acompanha Van Gogh em um dos períodos mais intensos de sua carreira?
Desde a infância, Vincent sempre foi carente de amor e esteve constantemente à procura dele, nas pessoas, nas coisas, na natureza, na religião, na arte. A ideia de Clara foi criar um personagem que vibrasse no mesmo universo de empatia de Van Gogh, podendo assim desvendar seus sentimentos, revelando-os e tornando-os acessíveis ao leitor.
4) No livro, Clara e Vincent compartilham uma conexão que vai além da amizade. Que impacto emocional essa relação exerce sobre o desenvolvimento artístico e pessoal de Van Gogh?
Foi em Arles que Vincent conseguiu encontrar a plenitude de sua expressão artística. Em apenas 15 meses (fevereiro de 1888 a maio de 1889), criou cerca de 200 pinturas e aproximadamente 100 desenhos e aquarelas. Ao encontrar em Clara, a sustentação emocional para sua extrema sensibilidade e carência afetiva, alcançou a paz e segurança interior para otimizar seu trabalho criativo.
5) As paisagens da Provença são cenário de algumas das obras mais icônicas de Van Gogh. Como você explorou esse ambiente na narrativa, e de que forma ele influencia na história?
Provença é notável por sua diversidade e beleza cênica, com sua luz clara e cores intensas, os tons vibrantes do céu, os campos dourados e verdes ondulantes. E é ainda mais famosa pelos seus extensos campos de lavanda, criando uma paisagem roxa que perfuma o ar com um aroma suave. Van Gogh se mudou para Arles procurando exatamente esse cenário, com intuito de aperfeiçoar sua arte. O que ele encontrou superava suas expectativas, foi portanto necessário inseri-lo totalmente no ambiente, descrevendo pormenorizadamente os lugares, cores, luz, espaços, clima e suas mudanças conforme as estações do ano e horas do dia, com uma narrativa rebuscada e prolongada, de forma a adaptar a história da maneira mais real possível em como o pintor a experenciava.
6) O livro se propõe a desmistificar a imagem de Van Gogh como ”gênio incompreendido”. Poderia nos contar um pouco mais sobre essa abordagem e por que considera importante apresentá-lo sob uma nova ótica?
Van Gogh viveu em uma época em que poucas pessoas tinham acesso à arte, e esta era totalmente direcionada para uma elite que ditava normas às quais deviam se enquadrar para serem aceitos e legitimados. A forma inovadora de expressão de Vincent não foi compreendida pelos seus contemporâneos, pois não compreendiam a arte fora desses padrões pré-determinados. Com o tempo, a mudança dos arquétipos e expansão da visão do que é arte, o artista passou a ter o valor de suas obras reconhecido, porém, devido à sua complexa personalidade, manteve-se sempre no imaginário o perfil de desequilibrado. Atualmente, com todo conhecimento da psicologia humana, não é justo que ainda se rotule com simplismo alguém tão complexo. Entender o homem Van Gogh é entender sua arte, e a transformação da Arte após sua passagem pelo mundo.
7) Com descrições de obras como Noite Estrelada Sobre o Ródano, você mergulha o leitor no processo criativo do artista. Como foi escrever essas passagens e retratar o momento de criação de Van Gogh?
A sensação transmitida pelo quadro é de uma enorme paz, além de nos permitir admirar como a beleza noturna foi capturada, pontuada pelo brilho dourado das estrelas e das luzes refletidas no rio, evocando a serenidade que Vincent sempre almejou. Nas suas cartas ao irmão, Van Gogh detalhava meticulosamente o seu processo criativo, suas inspirações e técnicas, além de falar extensivamente sobre o significado emocional das cores, o que facilitou muito o processo de escrever a passagem. O trabalho de retratar o momento de criação foi confiado à personagem Clara, que conhecia o local como ninguém, tendo sido ela inclusive a falar com o pintor sobre o local e as sensações que teve ao assistir, daquele ponto exato, o anoitecer sobre o rio.
8) Sabemos que o apoio emocional e o amor podem ter um grande impacto na criatividade de uma pessoa. Em sua opinião, como esses fatores influenciaram Van Gogh, e como você os explorou na obra?
O que aconteceu com Vincent, e que provavelmente o salvou da ruína emocional e susteve sua fé na vida e no trabalho, foi o apoio afetivo e dedicação do seu irmão mais novo Theodorus (Theo), que também ofereceu suporte financeiro, permitindo que ele continuasse pintando. Van Gogh conheceu a mais profunda tristeza devido ao descaso dos pais, e também o que há de mais belo na felicidade de ter alguém que acreditava nele sem restrições, quando todos os demais lhe faltaram. No livro, Clara é o alter ego de Theo, que lhe dava força, confiança, carinho e apoio quando mais necessitava.
9) Que mensagem ou sensação espera que Clara e Vincent deixe para os leitores?
Que compreendam a necessidade de viver plenamente tudo de bom que o mundo nos oferece e saibam encontrar na natureza a beleza que foi necessário milhões de anos para criar e harmonizar. Hoje em dia vivemos em grandes cidades, cercados de concreto e luzes artificiais, sempre com pressa e sem tempo para enxergarmos o encanto que a cada momento nos é posto à frente sem darmos conta disso, pois temos o celular e a televisão para roubar o pouco tempo que poderíamos dedicar a observar as coisas maravilhosas que nos cercam. Às vezes nos permitimos a liberdade de um olhar momentâneo para uma coisa bela e repetimos aquela famosa frase da qual já esquecemos o verdadeiro sentido: “Eu amo a natureza”, pois vamos perdendo a noção de tudo que essa natureza realmente representa.
10) Para quem ainda não conhece sua obra, poderia nos contar um pouco mais sobre sua trajetória como escritor e sobre o que despertou seu interesse por Van Gogh?
Minha trajetória como escritor começou, de fato, em 2017, quando recebi uma Menção Honrosa no Concurso Internacional de Literatura da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ) com o livro “O Aroma do Café em Flor”. Publiquei também “O Retratista”, um romance ambientado em Portugal no ano de 1385, que conta a história de um alquimista que desenvolve uma técnica para fixar imagens em uma lâmina de vidro, e precisa fugir da Inquisição. Para 2025, está confirmada a publicação de “O Cego que Cultivava Flores”, ambientado no século XI, quando os árabes dominavam parte da Península Ibérica e a região era conhecida como Al-Andalus. Clara e Vincent foi lançado em 2023, em Portugal. Meu interesse por Van Gogh surgiu ao ler sobre esse homem amargurado por não conseguir ser compreendido, não apenas no nível artístico, mas também por não alcançar sua realização pessoal como pintor. Apesar das adversidades, ele conseguia enxergar beleza em todas as coisas. Meu fascínio cresceu com as pesquisas que realizei enquanto escrevia Clara e Vincent.
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