Autora compartilha estratégias para enfrentar os dilemas da vida adulta por meio de uma narrativa envolvente e reflexiva.

A terapeuta familiar e especialista em Gestalt, Vânia Portela, convida os leitores a uma jornada de autoconhecimento e equilíbrio emocional em seu novo livro, Eu Podia Ser Feliz e Não Sabia (Editora UmLivro). Nesta obra, Vânia utiliza metáforas culinárias — como sal, pimenta e açúcar — para ilustrar diferentes temperamentos e nos ensina a dosá-los para melhorar relações e superar desafios.

Por meio da protagonista Sandra, que enfrenta crises profissionais e pessoais, a autora traz reflexões práticas para construir relações saudáveis e desenvolver uma comunicação assertiva. Em nossa entrevista, Vânia fala sobre suas inspirações, métodos de análise comportamental e estratégias para lidar com o esgotamento emocional nos tempos modernos.

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LEIA A ENTREVISTA:

1. O que a motivou a escrever Eu podia ser feliz e não sabia? Como surgiu a

ideia de usar temperos como metáfora para os temperamentos humanos?

Há muito tempo eu vinha procurando uma forma de levar as pessoas a entenderem a

importância dos temperamentos no equilíbrio dos seus comportamentos. Porém, eu

queria que fosse uma maneira simples e interessante que despertasse a curiosidade

pelo tema e que facilitasse a identificação com o seu tipo de temperamento. Num certo

momento de vida eu tive que fazer uma cirurgia no esôfago, que me deixou muito

tempo de molho em casa. Aproveitei a oportunidade de estar com muito tempo livre e

me dediquei a escrever. De imediato me veio a ideia de escrever em forma de

romance, para facilitar a leitura e utilizando histórias reais de antigos clientes, com a

preocupação de não usar os nomes verdadeiros e fazer alguns ajustes para não

serem identificados. De repente me ocorreu que temperamento vem de tempero e

passa a ideia de que podemos ter ingerência sobre ele, uma vez que podem ser

dosados, deixando claro que é possível mudar, melhorar nossos comportamentos e

ser feliz a partir deste conhecimento novo. Escolhi os temperos que passavam bem as

características de cada temperamento e fui montando a história.

2. Sua experiência com terapia familiar e Gestalt influenciou diretamente a

criação da protagonista Sandra e suas reflexões no livro?

Sim. Quem lê o livro poderá verificar vários momentos da minha prática terapêutica e

os resultados nas histórias dos personagens que refletem momentos de vida que

todos nós passamos.

A Gestalt é uma linha de terapia que utilizo em que foco na busca do equilíbrio do

temperamento de cada um, ela é muito precisa e objetiva.

Gestalt é uma palavra alemã que significa a relação entre uma figura e o meio ou o

fundo do qual ela faz parte. Imagine que você está prestando atenção nesta entrevista.

A entrevista é figura principal para você. Seu foco está nela. Todo o resto em torno de

você é o fundo que fica sem foco naquele momento. De repente seu filho lhe chama e

você vai atende-lo. Ele agora passou a ser a sua figura e a entrevista passou a ser o

fundo. Seu foco agora é seu filho a entrevista perdeu a importância. Tudo na vida está

relacionado a figura e fundo. Aquilo que nós prestamos atenção e investimos nosso

foco, nossa energia, nossa ação é a figura. Entender isto é importante para elegermos

o que queremos ou o que precisa ser figura para tocarmos bem a nossa vida. Hoje

está cada vez mais difícil darmos foco ao que é importante para nós por conta de tanta

coisa chamando nossa atenção ao mesmo tempo. Assim é com o nosso

temperamento e o do outro. Há ocasiões que o foco é o nosso jeito de ser, o nosso

tempero, mas em outros momentos o foco deve ser no outro. Aprender como fazer

isso e viver melhor, é o meu trabalho.

3. Como sua trajetória pessoal moldou a narrativa?

Sempre tive profundo interesse por este assunto e me dediquei a estuda-lo

profundamente e não faltou oportunidade de colocar este conhecimento em prática,

tanto nas terapias individuais como nas de casais e processos de coaching para

empresas ajudando gestores a melhorarem a performance do seu comportamento e

serem melhores líderes. Por outro lado, uma das coisas que mais enriqueceu a minha experiência foi o trabalho constante que faço com meu próprio temperamento que me mostra, a cada dia, que é possível mudar e ser mais feliz.

4. O livro aborda a necessidade de dosar características pessoais em diferentes

ambientes. Pode explicar como funciona essa “dosagem” no dia a dia?

Numa comida é utilizado sempre mais de um tempero. Por exemplo, até em um doce

de leite, a gente pode colocar um “cravo da índia”, que dá um sabor especial ao doce,

sem prejudicar a predominância do tempero dele que é o açúcar. Isto porque um

tempero tem a capacidade de reduzir a intensidade do outro gerando mais equilíbrio

na comida e melhor sabor; no caso do doce de leite, tirando o excesso do açúcar.

Assim também é na vida. Todos nós nascemos com um tipo de temperamento que é o

predominante e que é formado de uma mistura de 1, 2 ou no máximo 3 temperos.

Quem é muito “apimentado”, as vezes passa por cima de todo mundo porque não

ouve, tem pouca empatia com os outros e somente sua opinião deve valer. Esta

pessoa precisa desenvolver mais “açúcar” para dosar seu temperamento. O “açúcar” é

aquele que melhor sabe ouvir. É aquele que vê o outro e quer ajudar. É o que tem

empatia de sobra e pode dosar a “pimenta”. Uma pessoa com muito “sal”,

descontraída, leve, que não gosta de seguir normas e se perde querendo agradar todo

mundo, precisa desenvolver o “limão” que segue mais as normas, que é mais

controlado, usa mais o racional do que o emocional e vai equilibrar a vida de quem é

“sal” em exagero.

5. Como foi o processo de desenvolver e utilizar a “Rota de Equilíbrio”? Poderia compartilhar um exemplo de aplicação prática para leitores que buscam um equilíbrio comportamental?

Rota é um caminho a ser seguido e como todo caminho tem pedras, flores, desvios,

subidas e descidas. Assim também é a vida. Ela não é linear, é circular, ora estamos

em cima ora estamos em baixo porque somos parte de um mundo que muda a todo

instante. Saber trilhar este caminho envolve um aprendizado para lidar com cada

momento, utilizando bem o nosso temperamento e desenvolvendo características dos

outros tipos de temperamentos. No nosso cérebro temos os 4 tipos de “temperos” com

a predominância de 1 ou 2. Quando aprendemos a dosar, retirando os excessos e

acrescentando características que nos faltam, estamos no caminho do

amadurecimento que nos conduzirá a trilhar melhor a rota que escolhemos para nossa

vida, ou até mesmo mudar, escolher outro caminho para percorrer.

Encontrar o equilíbrio envolve várias etapas que se inicia com a sensação, segue pela

tomada de consciência, mobilização de energia, motivação, planejamento, ação,

satisfação e descanso. Cada etapa desta exige um tipo de comportamento adequado

para vive-la e com certeza uma nova forma de ver e de se comportar. A tendência do

nosso temperamento é pular etapas e atropelar-se. Tem pessoas que ao terem uma

sensação, um desejo já parte para a ação. O resultado é que não tomam consciência

das razões pelas quais aquele desejo emergiu, não observam o meio (mobilização de

energia) para ver que consequências teriam ao colocá-lo em prática, não se planejam

e seguem para a ação de forma impulsiva. No final a ação não traz a satisfação que

esperavam e entram numa nova sensação, agora de frustração ou de raiva, e

continuam o ciclo desordenadamente. Com certeza o descanso não acontece porque,

onde há insatisfação não há paz.

6. Para aqueles que estão começando a jornada de autoconhecimento e enfrentam desafios emocionais, quais seriam os primeiros passos recomendados?

Este é um aprendizado que você pode escolher viver sozinho e se machucar diversas

vezes ou viver dentro de um processo terapêutico, de forma mais cuidadosa e ir

encontrando o equilíbrio do seu temperamento. Quem pensa que dá conta sozinho

dos seus problemas, corre o risco de chegar no final insatisfeito ou machucado

demais. Vale a pena buscar ajuda e chegar inteiro e mais satisfeito.

7. Você também aborda no livro a importância de uma comunicação mais respeitosa e assertiva. Pode dar exemplos de situações em que pequenos ajustes podem melhorar significativamente as relações interpessoais?

Sim. A nossa tendência é quase sempre fazer julgamentos em lugar de entender o

ponto de vista do outro. Ao entender o que o outro sente, fica mais fácil entender a

linha de raciocínio dele e chegar mais perto de um acordo ou solução. Imagine que

seu companheiro(a) está lhe tratando com desdém, com grosseria e você não está

entendendo as razões daquele comportamento. É mais fácil começar a revidar este

tratamento de forma igual ou afastar-se o que não resolverá o problema. Se, no

entanto, você chegar junto e disser: “Eu não estou satisfeita com nosso

relacionamento. Tenho observado que você está me tratando de maneira agressiva,

desdenhando de tudo que eu digo e gostaria de saber o que está acontecendo para

você estar se comportando assim”. Neste momento você não julgou, não agrediu e

nem desrespeitou. Apresentou dados e fatos, mostrou o que você estava sentindo a

respeito e não se colocou como vítima. Abriu uma porta para o diálogo. Não há

mudança sem acolhimento, porém, acolhimento não significa subserviência e sim

compreensão que é o início da solução.

8. Como você vê o papel da autoanálise nos tempos atuais, especialmente com o aumento do esgotamento emocional nas rotinas modernas?

O esgotamento das rotinas modernas tem a ver como cada um encara seu propósito

de vida e como escolhe vive-lo. A vida dá as demandas e não para. Quem faz as

escolhas somos nós. Com certeza o temperamento de cada um dita o comportamento e o talento para esta escolha e a forma de vivenciá-la. Se você está em desequilíbrio e é aquela pessoa que tem um talento e quer mostra-lo a todo custo, sacrificando-se na tentativa de ser visto, sendo subserviente, passando por cima de si, dificilmente vai conseguir o que deseja. É mais fácil encontrar quem lhe explore no caminho. Isto é um desequilíbrio típico do temperamento “açúcar”. Se você é aquela pessoa que, ao contrário, é prepotente, está a todo momento competindo com os outros tentando mostrar suas qualidades, tripudiando sobre o vencido, é possível que chegue ao final do caminho sozinho. Este é um desequilíbrio típico do tipo “pimenta”. Ambos precisam de autoanálise para cair a ficha e perceberem o que estão fazendo com suas vidas.

9. Em sua opinião, quais traços comportamentais os líderes de hoje mais precisam desenvolver para enfrentar os dilemas da vida adulta com resiliência?

A maior competência dos dias atuais é entender de pessoas. Como as pessoas

funcionam e como falar a linguagem delas. Um bom líder sabe que a competência

dele vem de como ele lidera a sua equipe e tira dela o que há de melhor. Por isso

entender de pessoas é o principal. Para isso ele precisará saber ouvir, ser firme nas

suas colocações e não agressivo, fazer com que seus liderados entendam que

precisam dar opiniões, mas que a decisão é da chefia uma vez que a responsabilidade

final é dela. Ele precisa saber estabelecer prioridades para não ser consumido pelas

demandas das pessoas impacientes e intolerantes cuja velocidade do tempo é quem

determina o ritmo que leva ao esgotamento e não a solução com qualidade. É preciso

ter amadurecimento para porque a resiliência vem da maturidade que nos conduz a

certeza de não temos todas as respostas e que temos a possibilidade e o direito de

errar. Reconhecer o erro é o primeiro passo para consertá-lo. Não desenvolvemos

maturidade se não nos conhecemos, se não equilibramos nosso temperamento.

Costumo dizer que o temperamento é um cavalo selvagem que tem que ser

transformado em cavalo de equitação. Como dizia Nelson Sargento, da Mangueira:

“quando eu me entendo, nada me atormenta. Eu encaro a vida como ela se

apresenta”.

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