Autor mineiro revisita a ancestralidade da língua portuguesa e questiona os valores contemporâneos com uma narrativa provocativa.

Fernando Dusi Rocha, escritor e poeta, lança pela editora 7 Letras o romance Aquando nem o inferno. Com uma ousada fusão entre a linguagem arcaica do cancioneiro galego-português e temas contemporâneos, a obra conduz os leitores a uma reflexão profunda sobre os valores éticos e a hipocrisia social. Ambientado na fictícia cidade mineira de Santa Vaia, o livro acompanha os dramas de uma família marcada por conflitos morais e sociais.

Em entrevista exclusiva, Dusi fala sobre sua motivação para resgatar o português arcaico e como a ancestralidade da língua pode dialogar com as questões atuais. Ele aborda ainda os desafios da escrita, a construção dos personagens e a crítica à superficialidade e ao moralismo, tão presentes em nossa sociedade.

Descubra mais sobre essa obra singular e o pensamento por trás de uma narrativa que desafia padrões contemporâneos. Acompanhe a entrevista completa e mergulhe em uma experiência literária que celebra a riqueza da língua portuguesa e questiona nossa visão de mundo.


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Confira a entrevista:

1. Aquando nem o inferno explora uma linguagem arcaica inspirada no cancioneiro galego-português. O que o motivou a trazer essa tradição linguística medieval para um romance contemporâneo?

Antes de apresentar o motivo da minha escolha pela linguagem dita arcaica, preciso fazer duas observações.

Primeira: não faço uso do vernáculo arcaico ou, propriamente, de uma linguagem arcaica, pois se assim fosse, eu teria escrito no riscado da sintaxe, ortografia, morfologia e léxico do Português rigorosamente antigo. Meu livro traz alguns elementos lexicais colhidos diretamente do riquíssimo Cancioneiro galego-português (ou galaico-português), que é um conjunto de cantigas trovadorescas produzidas entre o final do século 12 a meados do século 14 na Galícia, região norte de Portugal, fronteiriça com a Espanha. Trata-se de um dos patrimônios mais ricos do cancioneiro medieval do Ocidente — e é, sem a menor dúvida, o berço da literatura lusófona.

Segunda observação: em “Aquando nem o inferno” ousei optar por apresentar ao leitor uma linguagem inusitada, à vista do que se publica comumente no mercado editorial. Misturei no romance elementos do léxico das cantigas de escárnio e maldizer (um dos gêneros do Cancioneiro galaico-português) com transgressões sintáticas da regra culta vigente no Brasil (como por exemplo a colocação pronominal). O resultado de tudo isso desagua numa expressão literária com feição arcaica que pode causar espanto ao leitor. E gerar essa surpresa é minha declarada intenção.

Longe de mim a audácia de criar um novo léxico ou uma nova linguagem nos moldes do inigualável Guimarães Rosa. Por isso, acho essencial destacar que não elaboro neologismos no meu romance. Afora os vocábulos que recolho do Cancioneiro medieval, outros tantos por mim utilizados ─ mesmo não dicionarizados no Brasil ─ são lexicografados em Portugal (como é o caso do próprio “aquando” do título).

Feitas essas duas notas, acho que estou pronto para falar a respeito da motivação do uso da tradição linguística medieval num romance contemporâneo.

Nos últimos anos, assistimos um movimento indiscutivelmente frutífero na cena literária brasileira atestado pela publicação de consagradas obras que se investiram em territórios da ancestralidade ─ seja a do negro, seja a dos povos originários. Essa temática tornou-se, a meu ver, o veio mais marcante na literatura brasileira contemporânea nesse quase quarto de século. Trata-se de um leitmotiv valiosíssimo, em razão das reflexões suscitadas no espírito do leitor, pois a voz da ancestralidade explicitada em romances de tanta intensidade força a revisão e reafirmação de valores cobradas por uma sociedade ainda ferida por estigmas raciais e sociais.

A verdadeira motivação do meu romance está em propor ao leitor um mergulho na ancestralidade da língua portuguesa. Alguns autores oferecem ao leitor imersões etnográficas e dão voz ao negro ou aos povos originários. Minha oferta é uma submersão ─ com dispneia e sem equipamentos de mergulho ─ nas fontes mais primordiais e fecundas da língua portuguesa. É a língua dando voz à própria língua, no seu veio mais longínquo. A ideia de utilizar fontes lexicais do cancioneiro galego-português medieval não atribui ao romance a pecha de uma obra anacrônica e desproposital para a contemporaneidade. Não há ferrugem no romance. Ao contrário, a proposta é retirar camadas de ferrugem e deixar surgir a grandeza da ancestralidade da língua portuguesa e tentar comprovar que esse resgate não é incompatível com o ato de leitura na atualidade.

Meu desejo é chamar atenção para o fato de o Português não nasceu com a formação do reino de Portugal no século 12, mas sim cerca de seis séculos antes, derivando-se do Galego, língua falada ao norte do país por pobres pastores. Essa visão joga por terra as designações comumente atribuídas à nossa língua como a “Última flor do Lácio, inculta e bela”, atribuída por Olavo Bilac, ou mesmo “Latim em pó”, dada por Caetano Veloso. Os puristas e nacionalistas repudiam veementemente essa tese ─ comprovada, aliás, pelo linguista e professor português Fernando Venâncio, no excelente livro “Assim Nasceu uma Língua” (lançado no Brasil quando este romance já se encontrava em fase de editoração).

Quero que o leitor perceba a atemporalidade do léxico por mim utilizado. E mais: que ele capte pela leitura de um romance escrito em fôrma arcaica que a civilização por nós conhecida fundamenta-se numa intepretação do ato da palavra, no desenvolvimento de possibilidades cognitivas implicadas na língua, em séculos de evolução e reavivamentos. Quando falo em língua estou a considerar que todo idioma é composto por uma tessitura vivente e vibrante, que evolui, diacronicamente, e também se recicla. A ideia do romance é que a essa trama que chegou ao Português falado hoje em dia sejam acrescentadas reminiscências do nascedouro da língua, de forma instigante e prazerosa ao leitor.

Enfim, o tom de novidade que busco dar ao romance está em reativar o engenho da chave medieval e galega (ou galaica) de nossa língua, buscando mostrar como um léxico usado há oitocentos anos ainda pode interagir com o leitor atual. Para cumprir essa proposta, busco mostrar que mecânica provocadora das dúvidas sobre o vocabulário arcaico é capaz de gerar o processo indutor do estranhamento no espírito do leitor e de conferir a ele a liberdade de ser co-criador da obra literária. A ele caberá, enfim, decidir a questão semântica: ele passa a ser o senhor do significado. Ele é senhor da interpretação do ato da palavra e das múltiplas sugestões implícitas na língua portuguesa. Em última instância, a proposta é que o processo de leitura e interpretação do romance se realize no caminho misterioso que se insinua entre as brechas do texto literário e as afeições da alma do leitor.

2. Você já mencionou a intenção de afastar a ideia de que a linguagem arcaica seja incompatível com a contemporaneidade. Quais foram os maiores desafios em fazer essa fusão de linguagem e conteúdo?

Como registrei na resposta anterior, o meu primeiro estímulo foi reaver as primícias da língua portuguesa no registro de um cancioneiro que se caracteriza pela forte impregnação de elementos coloquiais e do cotidiano tanto da vida nobreza quanto das camadas mais pobres do povo. As canções de escárnio ou mal dizer definitivamente não corporificam qualquer temática sublime ou transcendente. Ao contrário, primam pelo conteúdo vulgar e devasso. A esse trovador não cumpria fazer juízo moral dos feitos e contrafeitos exaltados em suas cantigas. A ausência de qualquer juízo de cunho moralístico na leitura dessas cantigas foi fator determinante para que eu encontrasse o filão para desenvolver a narrativa. Se eu tivesse escolhido, por exemplo, os gêneros das canções de amigo, de amor, a tenção de amor, ou cantiga de louvor, todas integrantes do cancioneiro, essa assimilação não teria sido possível. Enfrentar o desafio de mesclar o conteúdo da narrativa e a linguagem vulgar do cancioneiro de escárnio só foi viável quando decidi deixar fluir a narrativa sem tomar uma postura de julgamento ético como autor, evitando que essa conduta contaminasse o narrador onisciente e a única das irmãs Behu que é narradora, a Areúsa. No mais, em todo processo criativo fui tomado por uma espécie de intuição ─ meio prodigiosa ─ da alma coloquial, sarcástica e, tantas vezes, impudica daquele cancioneiro.

3. A ambientação na fictícia Santa Vaia, com seu cenário familiar e religioso, é um convite a reflexões sobre valores e ética. Por que escolheu situar a narrativa em um ambiente interiorano e tradicional?

Em primeiro lugar, preciso dizer que sou nascido numa cidade do interior de Minas. Embora hoje essa cidade seja mais populosa e próspera, desde a época de minha infância até a adolescência (deixei-a aos 16 anos de idade para estudar em Juiz de Fora), minha terra era tipicamente interiorana e tradicionalista. Naqueles anos, vivia-se sob a ditadura militar, e as tradições católicas eram observadas com rigor, com procissões na semana santa e nas ocasiões próprias. No entanto, meu encontro com as Behus que inspiraram a narrativa ocorreu em outra cidade, próxima à minha, onde morava minha avó materna e para onde eu ia todo fim de semana. A primeira vez que as ouvi cantando aquela lamúria com inflexão desafinada e esganiçada, vestidas sob tule preto com uma estrela pregada numa tiara, fiquei estupefato com a força e dramaticidade da cena litúrgica. Elas entoavam “Heu! Heu!” ─ que o povo interpretou transliterou como “Beu! Beu!”, donde veio o nome das Três Marias chorosas da morte de Cristo.

Naquele contexto social e religioso por mim vivido nos finais dos anos 60 e em quase todos os anos 70, apesar das reformas progressistas do Concílio Vaticano 2, a Igreja ainda ditava padrões rigorosos de conduta e de convívio social. Carolas puxavam o terço diário e pajeavam os padres, católicos sinceros e hipócritas sentavam-se nos mesmos bancos nas missas de domingo, gente preta era bem-vinda à catolicidade, sob véus de condescendência, e, por fim, grilhões da condenação eterna ainda importunava a consciência de muitos. Os ritos dessa religiosidade rica de protocolos e imagética eram, para grande parte dos fiéis, a essência da fé. O que importava era cumprir rituais e as exigências litúrgicas e sacramentais, pouco importando a conduta que se tinha fora das paredes da igreja. Não se conseguia camuflar a conduta farisaica de membros importantes da comunidade. Não estou falando dos pecadilhos de carolas fuxiqueiras, de mocinhas avançadas ou de padres que emprestavam dinheiro a juros. Estou falando de doutores, políticos e empresários que batiam no peito o “mea maxima culpa” e mantinham amantes, frequentavam a zona, compravam juízes, roubavam dos pobres consumidores em suas redes de lojas. Redimir-se de pecados capitais era coisa de pobre.

Esse caldo sócio-cultural formado pela prevalência da ritualística sobre a essência da religiosidade e pela hipocrisia indisfarçada daquela sociedade ─ que pude vivenciar sem olhos críticos até minha adolescência ─ serviu de fermento ideal para massa narrativa de Aquando nem o inferno. A ambientação da fictícia Santa Vaia definitivamente guarda verossimilhança com o que experenciei e com o que ainda se vive hoje em tantas cidades do interior ─ obviamente sob as medidas e diferenças cabíveis à realidade bem mais complexa vivida na atualidade. Sem dúvida, o entrelaçamento dessas referências religiosas e sociais, numa ambiência interiorana e numa época um pouco distante, foram determinantes para oferecer ao leitor uma reflexão de questões éticas, ainda hoje persistentes e perturbadoras.

4. Quais paralelos você vê entre os conflitos éticos e sociais abordados na obra e a realidade brasileira contemporânea?

É perfeitamente possível interligar as questões morais abordadas no romance com os problemas éticos (ou aéticos) vividos na contemporaneidade. Antes de apontar essa conexão, devo dizer que boa parte das questões morais contidas no livro foi suscitada a partir do plágio oblíquo e distorcido que o boticário, pai das irmãs Behu, faz da doutrina do jesuíta espanhol Baltasar de Gracián, que viveu no século 17 e foi um dos expoentes do conceptismo — uma vertente literária do barroco que se caracteriza pelo jogo de ideias e pela retórica aprimorada. O boticário deturpa, ao seu bel prazer, algumas sentenças de Gracián, sobretudo aquelas mais lacônicas que permitem diversas interpretações. Suas versões pessoais da doutrina de Gracián são repassadas às suas filhas, como uma espécie de “Moralística” de sua própria autoria, baseada na prevalência da exterioridade sobre a interioridade, no empenho pela galanteria na sociedade, no desprezo da substância das coisas, em detrimento da aparência. As verdades, enfim, que mais importavam deveriam vir sempre do meio de dizer, não da autenticidade dos fatos. O que vale, nesse ideário, é o teatro de luzes sobre a exterioridade de si mesmo e das coisas. Na verdade, estamos falando muito mais de uma Amoralística do que uma Moralística.

Pois bem, fica mais fácil agora alinhar alguns pontos do romance que fazem essa conexão com a ética (ou falta de ética) prevalente na cultura atual. Em primeiro lugar, continua sendo concreta e atualíssima a primazia da aparência sobre a essência das coisas. Anoto que a Celestina, protagonista do romance, foi a que mais pôs em prática a doutrina do pai sob esse aspecto, ao desafiar, por exemplo, os bem nascidos daquelas cidades, que não aceitavam sua ascensão social, e ao afrontar a mesma sociedade conservadora que aceitava como normal o adultério dos maridos, não o das mulheres. A dominância da aparência das coisas e pessoas nos anos 50 e 60, época em que transcorre boa parte da narrativa chega a ser desprezível se comparada com os acontecimentos que vivenciamos agora, sobretudo diante do poderio das redes sociais sobre as pessoas, que nelas encontram lugar ideal para a dissimulação e o disfarce. Além disso, a hipocrisia da sociedade vigente na época do romance ganhou uma grandeza ostentosa nos dias de hoje. O falso moralismo filtrado no romance mostra-se agravado em progressão geométrica pelas engrenagens do conservadorismo em nossa sociedade contemporânea. Veja-se, por exemplo, no romance como fica explícito que igreja adiou o reconhecimento da santidade da Beata Hebreia, diante do fato de que os supostos milagres aconteceram com filhos de prostitutas. Esse fato é perfeitamente plausível na atualidade, por maior que tenha sido a tolerância da sociedade com o ofício das prostitutas desde a época do romance.

Há, ainda, outros pontos de ligação que podem ser destacados: a precedência do ritualismo religioso sobre a essência da fé, não importando a confissão religiosa que se tenha; o escapismo das pessoas às futilidades e comodidades da sociedade de consumo, a necessidade de possuir e ostentar; a negação da discriminação racial por uma burguesia que se esconde atrás da cortina de uma falsa democracia racial; a secundarização do papel da mulher na sociedade e outras tantas.

5. Aquando nem o inferno apresenta uma crítica à superficialidade e ao moralismo. Como foi desenvolver uma narrativa que questiona a sociedade, utilizando elementos como as cantigas de escárnio e maldizer?

Como frisei em resposta anterior, as canções de escárnio ou mal dizer definitivamente não veiculam qualquer temática sublime ou transcendente. Ao contrário, primam pelo conteúdo vulgar e devasso. O juízo moral a respeito do que se trovejava era descabido tanto ao trovador quanto ao destinatário das trovas. As cantigas eram jocosas e faziam troça tanto de personagens da nobreza quanto do povaréu, e há várias cantigas que se referem às prostitutas, chamadas soldadeiras pelo cancioneiro, em suas desditas. Afora a ausência de qualquer juízo de cunho moralístico, a cantigas que inspiraram minha narrativa cumpriam indiscutivelmente uma função crítica da sociedade vigente, com suas profundas desigualdades sociais.

Não é pelo fato de serem pitorescas e até mesmo obscenas que se está autorizado a retirar desse gênero de Cancioneiro a responsabilidade de permitir a interpretação e compreensão da realidade então reinante no Medievo galaico-português. Reflexões políticas, sociais e histórias são facilmente colhidas dessas canções. A superficialidade delas ─ supostamente inferida do tom jocoso ─ é ilusória. A grande astúcia do trovador de escárnio foi valer-se desse tom grosseiro para, ao fim, fazer verdadeira crítica social. Esse artifício foi um elo do qual fiz proveito no romance: a jocosidade ─ que para alguns pode parecer gratuita ─ foi um recurso por mim utilizado para questionar a superficialidade e o falso moralismo da sociedade ao tempo da narrativa (que não é, aliás, tão diferente da atual). A utilização de elementos desse cancioneiro, para atingir o propósito de fazer uma crítica à frivolidade e falso moralismo da sociedade, foi um fruto de um exercício literário lúdico e ao mesmo tempo austero. Lúdico, por conter troças que acarretam, certamente, efeito no espírito do leitor; sério, por buscar manter preservada a função social da literatura, que é a de franquear ao leitor a compreensão da realidade e, assim, a emancipação dos dogmas impostos pela sociedade. Sei que isso pode parecer paradoxal, mas me pareceu um recurso razoável, tanto do ponto de vista estilístico quanto do ponto de vista conteudístico, para expressar as contradições da sociedade, da protagonista e das personagens ─ e, talvez, do próprio leitor.

6. Seus personagens, como o boticário e suas filhas, trazem uma riqueza de referências filosóficas e morais. Como essas influências, incluindo a obra de Baltasar Gracián, moldaram a construção dos personagens?

De fato, há inúmeras máximas do filósofo, escritor e jesuíta espanhol Baltasar Gracián, vocalizadas pelo boticário. Durante toda sua vida, o pai da irmãs Behu escondeu delas o fato de ele não ser o verdadeiro autor daquelas reflexões filosóficas. Só na carta-testamento que veio à lume depois de sua morte é que elas tomaram conhecimento que junto à carta havia um exemplar antigo de uma das obras principais de Gracián, “Oráculo Manual y Arte de Prudência”, que consiste em 300 aforismos acompanhados de comentários. Há dois pontos importantes que preciso mencionar sobre o manuseio da obra de Gracián no romance. Em primeiro lugar, preciso dizer que há no romance uma intertextualidade implícita com Gracián. Além de implícita, trata-se de uma intertextualidade indireta, pois não sou eu propriamente, por meio do narrador onisciente, que estabelece relação entre o texto de Gracián e as máximas do boticário. A intertextualidade ocorre pela voz da personagem, fato que não afasta a ocorrência da intertextualidade estilística. Em segundo lugar, é importante dizer que o boticário deturpa algumas sentenças de Gracián, ao seu bel prazer. Na filosofia de Gracián, prevaleciam os temas da prudência e da razão humana, como estratégias para alcançar objetivos, sempre em equilíbrio com a moralidade. As adulterações do boticário são evidentes, pois induzem suas filhas a conclusões amorais ─ senão imorais.

As referências legítimas (ou intertextualidades autênticas) ao texto de Gracián moldaram a construção da personagem Areúsa, a irmã Behu que se tornou religiosa, e até certo ponto as condutas do próprio plagiador do jesuíta. As referências espúrias são decalques propositalmente imperfeitos da doutrina do jesuíta espanhol influenciaram profundamente a elaboração da protagonista da narrativa, a Celestina, e de sua rancorosa irmã Melibea, uma personagem que, embora episódica no romance, cumpre uma sina impiedosa. Além do que, esses decalques falseados de Gracián encontram seu apogeu na carta-testamento do boticário, na qual ele confessa, post mortem, todo seu engodo e dissimulação.

7. O português arcaico e a inserção de termos medievais exigem dos leitores uma atenção especial. Qual foi o retorno do público em relação a essa escolha linguística?

O retorno que tenho tido até agora é, como disse, de certo espanto diante da singularidade da minha escrita e sobretudo do vocabulário. Junto com o espanto, vem a curiosidade, e as pessoas me indagam como ler a obra. A elas eu respondo: o leitor de “Aquando nem o inferno” está muito distante do acadêmico afeito aos arcaísmos da língua portuguesa e aos meandros do cancioneiro galaico-português. Definitivamente, não escrevi para a Academia. Escrevi para o leitor comum, mas dotado de senso crítico e de curiosidade bastante para ir além da escrita confortável e previamente triturada pelo autor para fácil digestão. Escrevi para o leitor que acredita no poder da ficção e no potencial imaginativo seu e do autor, no compartilhamento criativo com o autor da obra diante da liberdade de preencher as lacunas que a linguagem inusual do livro permite. Não lanço deixas para que o leitor as capture com facilidade, e talvez por esse motivo meu romance possa ser considerado complexo pelo grande público.

E digo mais: ao mesmo tempo que lanço mão de um vocabulário arcaico, faço uso de recursos tecnológicos muito ao gosto do leitor da atualidade. Os cantos da Verônica e da Beata Hebreia, além de estarem transcritos em partituras, podem ser ouvidos em QRs Codes que estão na última página do livro. Trata-se de uma reprodução feita pelo sistema DIMI, ou seja, é o computador que executa a partitura. Mas esse efeito tem agradado bastante.

8. Em sua opinião, qual é a importância de revisitar a história da língua portuguesa e suas tradições para a literatura brasileira atual?

Já pude falar sobre esse assunto na primeira resposta, mas não é demais repetir. A grande motivação do meu romance é propor ao leitor um mergulho na ancestralidade da língua portuguesa. Como havia dito, um dos meus objetivos é chamar atenção para o fato de o Português não nasceu com a formação do reino de Portugal no século 12, mas sim cerca de seis séculos antes, derivando-se do Galego. Essa tese, certificada pelo grande linguista português Fernando Venâncio, é praticamente inédita no Brasil. O livro de Venâncio levou cinco anos para ser publicado entre nós, e somente agora está sendo apreendido pelos meios acadêmicos.

Meu romance, ao lançar mão do vocabulário do Cancioneiro galego-português medieval, tem a pretensão de validar ─ numa obra literária e, não, acadêmica ─ as ideias de Fernando Venâncio. Minha ambição é muito mais do que revisitar a história da língua portuguesa. É mostrar que um romance escrito em 2024 em fôrma arcaica (e, não, linguagem arcaica) pode oferecer ao leitor contemporâneo o resgate de uma herança esquecida, embora profusamente fértil. É demonstrar que a língua portuguesa que hoje falamos precisa resgatar suas origens, sob pena de perder sua originalidade e dignidade. Há leis na França que proíbe o uso de estrangeirismos. Não estou afirmando que deveríamos adotar essas medidas extremadas. No entanto, quando não se olha para o próprio umbigo linguístico, removendo camadas de séculos de depuração, corre-se o risco de se perder a identidade linguística ─ ou, quando menos, de vê-la se deteriorando.

9. Em um cenário onde a literatura contemporânea explora cada vez mais temas urbanos e tecnológicos, qual o valor, para você, de recorrer a formas e temas do passado?

Para mim, não se pode menosprezar o peso do passado ─ apesar da força dos temas urbanos e tecnológicos. Por isso, a datação de meu romance fora da atualidade foi intencional. Esse é um assunto que renderia muitas considerações de ordem filosófica e literária. Vou limitar-me a abordar duas perspectivas sobre a forma da abordagem do passado em minha obra. Primeira: o enfoque individual do retorno ao tempo passado. Sob esse ponto de vista, pretendi que a história de vida da protagonista e de cada uma das personagens fosse convincente o bastante para a fazer aflorar (ou mesmo construir) uma identidade que pudesse ser compartilhada, em algum momento, pelo leitor. A memória individual das personagens, desvelada ao longo do romance, pode coincidir com experiências do passado do leitor, com reminiscências de traumas ou alegrias, com ressentimentos, com culpas ou total ausência de culpa.

Segunda perspectiva: o foco coletivo de reavivamento do passado. Ambientar o romance nos anos 50 e 60 importou em recobrar o peso de uma memória coletiva que insiste em recair sobre os ombros da contemporaneidade. Não foi por acaso que narrativas individualizadas, como, por exemplo, a da catadora de lavagem, negra e católica fervorosa, servem como pinçamento para mostrar como as cicatrizes sociais existentes ao tempo do romance ainda continuam ardidas. As temáticas do passado, no meu romance, podem ser vistas como um peso inevitável e persistente. No entanto, as experiências colhidas naquele passado e naquela cidade do interior de Minas e narradas em estilo arcaico não significa que a obra seja envelhecida, pois o peso do passado em minha obra apresenta-se como uma oportunidade de aprendizado.

10. Para os leitores que estão tendo seu primeiro contato com uma obra de português arcaico, como recomendaria que eles se aproximassem da leitura para melhor aproveitar a experiência?

Em rápidas palavras: Espantem-se, mas não se aterrorizem com a minha escrita, sobretudo com o vocabulário arcaico. Vocês não estão lendo outro idioma: estão lendo vocábulos escritos há mais de 800 anos, cuja raiz chegou até nossos dias de hoje. O estranhamento no espírito do leitor acontece em toda literatura, pois se assim não fosse, não seria literatura. Se o estranhamento lhes parecer maior do que a capacidade de compreensão das palavras, ouçam a voz da intuição. Por exemplo, expressões por mim usar como prender sabendas são intuídas do verbo saber. Sugiro que exerçam a liberdade de interpretação que dou ao leitor. Esse é meu grande objetivo. Não se prendam à literalidade dos vocábulos desconhecidos (e não dicionarizados). O contexto lhe dará a solução.



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