Em entrevista exclusiva, o autor reflete sobre a desumanização dos migrantes e a influência de suas experiências humanitárias no Norte da África.

A realidade brutal da crise migratória e do tráfico humano é o ponto central do novo romance de Marcos Emílio Frizzo, Contrabandistas de Sonhos e Traficantes de Vidas (Editora Telha). Inspirado em anos de trabalho humanitário no Norte da África, o autor gaúcho explora a desumanização enfrentada por migrantes que atravessam o deserto do Sahel em busca de uma vida melhor. A trama segue Carlo, um médico italiano que, após anos de dedicação ao trabalho humanitário, retorna à Europa e se depara com as contradições de uma sociedade que perpetua as mesmas desigualdades contra as quais lutou.

Na entrevista, Marcos Emílio Frizzo fala sobre suas inspirações, o processo de pesquisa e o equilíbrio entre ficção e realidade em sua narrativa. Ele reflete sobre temas como colonialismo, xenofobia e a necessidade urgente de conscientização sobre os desafios migratórios globais.

Prepare-se para uma conversa profunda e instigante que revela como a literatura pode ajudar a entender a complexidade dos conflitos contemporâneos e a buscar soluções mais humanas e sustentáveis.


COMPRE O LIVRO: https://amzn.to/4gcFJ5p


1. Marcos, poderia nos contar um pouco sobre a inspiração inicial para

Contrabandistas de Sonhos e Traficantes de Vidas? O que o motivou a

explorar a questão migratória e a desumanização no contexto do Sahel?

A exclusão social, a marginalização e o preconceito sempre me indignaram e, de

certa forma, motivaram minha iniciativa de trazer estes temas à discussão dentro de

uma narrativa, uma vez que os mesmos aparecem associados à migração. Para os

migrantes, o deslocamento não se trata de uma mera opção de vida, porque

ninguém deixa suas raízes sem ter um bom motivo. Abandonar costumes, parentes

e o próprio passado para lançar-se numa jornada perigosa, rumo a um futuro

incerto, exige mais do que uma simples escolha, trata-se de uma resposta

desesperada.

O Sahel é uma das regiões mais perigosas do planeta, onde a criminalidade não

respeita fronteiras. Os personagens nos falam das causas históricas do

empobrecimento da África, resultantes de séculos de colonialismo e que foram

determinantes para que a violência atingisse níveis intoleráveis. Poderíamos

questionar se hoje, as vítimas deste passado não estariam buscando melhores

condições de vida nas terras de seus antigos exploradores. Provocar este tipo de

reflexão foi um dos meus objetivos ao escrever uma trama ficcional baseada em

fatos reais.

2. Como foi o processo de pesquisa para retratar de forma tão detalhada e

sensível as condições da crise migratória na África? Houve alguma

experiência pessoal que impactou a forma como você abordou o tema?

O estudo de artigos científicos, relatórios de organizações governamentais,

humanitárias e matérias jornalísticas trouxeram elementos e informações confiáveis

para que eu pudesse embasar a realidade do Sahel-saariano.

Porém, a experiência de ter visitado algumas regiões remotas do deserto foi

determinante para acrescentar intensidade na descrição de detalhes e nuances,

tanto das paisagens quanto dos personagens. A escuridão do Saara, durante a

madrugada gelada, varrida por um vento com cheiro de imensidão, é inesquecível e

capaz de impregnar lembranças definitivas em nossa memória. O fato de eu ter sido

sensibilizado pela atmosfera local com certeza enriqueceu o relato da história,

conferindo até um aspecto orgânico, uma vez que a ideia principal era a de falar de

vidas e de sonhos de pessoas. Era preciso que a mensagem não fosse impessoal,

porque o objetivo era o de atingir a humanidade do leitor e convidá-lo a colocar-se

no cenário da trama.

3. A obra é uma fusão entre ficção e realidade. Qual foi o maior desafio em

equilibrar essas duas perspectivas para que a narrativa fosse

envolvente e ainda transmitisse uma mensagem contundente?

O maior desafio foi detalhar a crueldade da exploração humana sem afugentar o

leitor. Para suavizar minimamente a narrativa, eu incluí detalhes do cotidiano dos

personagens, tentando descrever os fatos através do olhar deles, valorizando ao

máximo a beleza e a singularidade da região. O leitor é convidado a testar sua

empatia e a refletir sobre temas sensíveis que exigem a definição de um

posicionamento.

Obviamente, quando tratamos de uma temática complexa que expõe a

desumanidade da sociedade, é necessário envolver o leitor através de um processo

gradual, imersivo, até colocá-lo em cena, ao lado dos personagens. A violência

extrema nunca será um tema palatável, porém, deve ser denunciada sempre porque

está presente na realidade daqueles que decidem partir, movidos pelos sonhos de

uma vida melhor.

4. O personagem Carlo enfrenta um choque de realidades ao retornar para

a Europa. Como foi construir esse personagem que, mesmo sendo parte

de uma sociedade privilegiada, enxerga o impacto das desigualdades

sociais em sua vida pessoal?

Apesar das desigualdades aumentarem cada vez mais, eu acredito que possa haver

um futuro melhor para a humanidade. Sou otimista, ainda que saiba que será uma

longa caminhada até que a conscientização comece a dar resultados práticos. Não

se trata de um sonho idealista, mas sim de pura realidade uma vez que a população

de excluídos aumenta a cada ano e não há perspectivas de solução para a vida

dessas pessoas. Por isso o fluxo migratório também cresce no mundo, ele surge

como uma resposta a desigualdade social.

Carlo nasceu das minhas observações e reflexões sobre a sociedade. Entretanto, é

possível que outros como ele existam por aí com nomes diferentes. É fato que a

fortuna e o poder não imunizam as pessoas contra a dor e o sofrimento. Pelo

contrário, a depressão e o vazio existencial podem ser uma companhia constante na

vida de indivíduos cercados de privilégios. O protagonista vive atormentado por

saber que parte de sua fortuna veio de investimentos na indústria bélica. O

personagem precisava transmitir uma forte mensagem de responsabilidade social.

Isto era fundamental para provocar o leitor. O conforto de uma vida luxuosa seria o

esperado para o rico italiano, mas e sua consciência?

5. A obra aborda temas como colonialismo e exploração econômica. Em

sua visão, de que forma esses fatores históricos ainda influenciam os

fluxos migratórios atuais?

No passado, o colonialismo redefiniu fronteiras, aumentando os conflitos de etnias

rivais. Posteriormente, governos recém-formados já nasciam frágeis e sem um

judiciário capaz de fazer frente à violência. Em paralelo ao completo abandono das

antigas colônias, armas e munições sempre foram vendidas para grupos africanos

adversários, muitas vezes fornecidas por antigos colonizadores. Isso sempre foi um

bom negócio.

Durante décadas, a combinação de má nutrição, crises sanitárias, instabilidade

política e corrupção aumentou a violência de maneira explosiva no continente

africano. Inclusive, alguns países seguiram sendo explorados através de um

colonialismo disfarçado, com a finalidade de garantir acesso aos seus recursos

minerais, de fauna e de flora. A consequência desta profunda intervenção externa

desarranjou o tecido social, afundou a África na pobreza e criou bolsões de miséria

extrema, condições perfeitas para o estabelecimento da criminalidade na região. Os

fluxos migratórios são uma resposta à total falta de perspectiva de vida para estas

populações.

6. Durante o período em que esteve em Madri e Roma, você presenciou

episódios de xenofobia que o impactaram. Como essas experiências

influenciaram sua visão sobre a importância de tratar essa temática na

literatura?

Encontrar imigrantes nas ruas, vendendo mercadorias falsificadas já faz parte do

cenário urbano de muitas cidades. Para a maioria dos pedestres a presença deles

talvez nem chame mais a atenção, exceto quando reúnem apressadamente seus

produtos para fugir da polícia local.

Na minha opinião, a xenofobia está presente no cotidiano e na rotina dos imigrantes

de forma diluída e constante, quase em doses homeopáticas. Nem sempre ela

acontece num episódio violento e chamativo. Me questionava, por exemplo, qual era

o passado daqueles indivíduos apáticos que tentavam comercializar algo para

alguém. De onde eles vieram? Onde encontravam comida, água e espaço para o

lazer?

Porém, infelizmente também presenciei vários atos xenofóbicos explícitos. Um dos

mais impactantes para mim foi protagonizado por um adolescente em relação a uma

senhora preta, dentro de um ônibus. O fato de um jovem manifestar um

comportamento tão discriminatório reforçou meu pensamento de que essa temática

deveria ser abordada na literatura. Não posso compactuar e ser indiferente, por isso

decidi escrever e tentar dar voz àqueles que são vítimas dessa violência urbana.

Personagens podem nos falar do sentimento de quem sofre a exclusão social, a

marginalização e o preconceito. Trata-se de uma tentativa, porque o resultado final

dependerá, em última análise, do leitor.

7. A literatura pode ser uma ferramenta poderosa de conscientização.

Como você acredita que Contrabandistas de Sonhos e Traficantes de

Vidas pode contribuir para uma reflexão mais profunda sobre a crise

migratória e a exploração humana?

Quando desconhecemos a existência de algo, podemos ser completamente

indiferentes pelo mero desconhecimento dos fatos. Contrabandistas de Sonhos e

Traficantes de Vidas é para ser lido com o Google aberto. As informações

relevantes contidas ali podem ser checadas e são baseadas numa dura realidade.

Entender os mecanismos do contrabando de seres humanos e do tráfico de

pessoas deve nos envolver humanamente nessa questão. Já não poderemos alegar

ignorância em relação a isso. Vejo a literatura como uma maneira de trazer

informações para o leitor. São os personagens que nos contam sobre a violência, a

escravidão e a xenofobia. Podemos aprender através das suas narrativas. A

conscientização é um processo do leitor. Ele é que decidirá o que virá depois do

conhecimento desses fatos.

8. Qual é a principal mensagem que você gostaria que os leitores

levassem após a leitura de Contrabandistas de Sonhos e Traficantes de

Vidas?

A diversidade cultural enriquece a sociedade e pode trazer grandes benefícios. Não

devemos temer as diferenças porque elas fazem parte da natureza dos homens.

Países ricos, atualmente, já cederam parte do seu povo no passado. Pessoas que

cruzaram o oceano para construir uma nova vida, buscando oportunidades numa

terra distante.

Entretanto, a emigração forçada pela miséria faz parte de um mundo adoecido pela

desigualdade extrema. Neste caso, a empatia é o antídoto para tornar a

humanidade melhor. Focar nas semelhanças, encarando-as com aquilo que no

define como espécie. O melhoramento definitivo só virá quando as iniciativas vierem

daqueles que não são explorados e que não são marginalizados. Aqueles que não

sofrem podem ser sensibilizados a considerar a dor alheia. Esta é a mensagem.

9. Para quem deseja compreender mais sobre o tema da migração e suas

complexidades, há algum autor ou obra que você recomendaria?

Minhas fontes de estudo foram muito fragmentadas. Utilizei artigos acadêmicos,

reportagens, relatórios governamentais e de fontes humanitárias. Infelizmente não

saberia indicar um autor ou uma obra relacionada à migração.



Descubra mais sobre Livros N'alma

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Inspirado por

“O livro caindo n’alma / é germe – que faz a palma / é chuva – que faz o mar.”

~ Castro Alves

Descubra mais sobre Livros N'alma

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo