Terror psicológico, armadilhas mortais e um alquimista sádico prendem os leitores em uma trama alucinante.

Lucas C. Lima, autor carioca especialista em narrativas sombrias, apresenta uma obra arrepiante que combina suspense e terror psicológico: O Sonho da Borboleta. Inspirado pelo conto do mestre taoísta Chuang Tzu, o livro coloca um grupo de jovens em uma mansão abandonada, onde seus medos e traumas mais profundos são explorados por um alquimista imortal. Neste cenário claustrofóbico, cada corredor é uma armadilha e cada descoberta os aproxima de um destino incerto e aterrorizante.
Em entrevista exclusiva, Lucas compartilha suas inspirações, o processo de criação da narrativa e o impacto psicológico que pretende causar nos leitores. Ele também revela os desafios de escrever uma história que mistura horror, mistério e filosofia de forma tão envolvente.
Prepare-se para mergulhar em um verdadeiro labirinto de sombras e desvendar os segredos de O Sonho da Borboleta. Leia a entrevista completa e descubra o que acontece quando a mente é levada ao limite.

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1. O Sonho da Borboleta possui um enredo bastante impactante, remetendo ao terror psicológico e ao suspense. Quais foram as principais inspirações para a criação dessa história?
O livro House of Leaves foi uma das inspirações mais importantes, juntamente de Piranesi, ambas obras contam com uma casa que é maior por dentro do que por fora, onde o conflito se passa. House of Leaves especialmente, já que é um livro de horror que considero um dos meus favoritos da vida.
Edgar Allan Poe, HP Lovecraft e Oscar Wilde foram de grande importância na escrita do livro. O sabor gótico e melancólico de Poe se misturou com os horrores além da compreensão de Lovecraft, algo que costumo fazer em minhas histórias, mas ficou bem mais evidente em O Sonho da Borboleta. Enquanto isso, as reflexões de Oscar Wilde sobre a arte e o artista em O Retrato de Dorian Gray me incentivaram a colocar minhas próprias reflexões no papel, onde mergulhei fundo no que a arte é e em como ela pode moldar a realidade ao nosso redor.
Também bebi muito do conceito de Liminal Spaces e da creepypasta das Backrooms, onde o cenário é o foco principal do horror e do suspense; um lugar que é fora da realidade como a conhecemos, ou no mínimo, no limite dela.
Seguindo essa linha de inspiração em outras mídias, o filme Donnie Darko e o jogo Silent Hill serviram de tempero para algumas partes da trama; Donnie Darko inspirando a história a ser bem interpretativa e cheia de significados ocultos, e Silent Hill no aspecto da Mansão onde se passa a história se moldar conforme a mente dos personagens, criando armadilhas e monstros a partir de seus medos.
E, para finalizar, os contos do Jorge Luis Borges (especialmente Biblioteca de Babel, A Casa de Astérion e O Aleph) foram essenciais para a criação de O Sonho da Borboleta, em aspectos que não posso falar muito aqui porque seriam reveladores demais.
2. O conto de Chuang Tzu sobre o sonho da borboleta é uma referência interessante no seu livro. Como essa filosofia se conecta com o tema do terror psicológico abordado na trama?
O conceito do sonho de Chuang Tzu está intrinsecamente ligado à trama do livro, em alguns sentidos que não posso nem comentar pois tem a ver com segredos que só aparecerão no final do livro.
Mas, o que posso dizer aqui, é que a história mergulha muito em temas como “identidade” e “dualidade”; a ideia de que “Quem você é” e “Quem você acha que é” são duas coisas distintas, e na verdade você é uma pessoa totalmente diferente da que imaginava ser.
Por exemplo, os personagens na trama são colocados em situações extremas que os forçam a tomarem decisões drásticas que mudam para sempre a visão que eles tinham de si mesmos. Não é somente algo que os faz mudar como pessoas, mas na verdade revela quem eles eram desde o começo. E tudo o que eles eram capazes de fazer.
Enfim, a plasticidade do ser e a fluidez da identidade são conceitos profundamente importantes para a história.
3. A mansão e seus corredores parecem agir como personagens próprios dentro da narrativa, ampliando o terror e a sensação de aprisionamento. Poderia nos contar mais sobre como criou esse cenário?
Claro! Ao meu ver, a Mansão é o aspecto mais importante do livro, servindo ao mesmo tempo de protagonista e antagonista para a história.
Como comentei na primeira resposta, conceitos como Liminal Spaces e as Backrooms me ajudaram muito a criar esse espaço, que é quase como um limite entre o real e o imaginário, um mundo que quase faz sentido, mas que tem algo de profundamente errado.
O fato da Mansão se moldar através dos medos e receios dos personagens foi feito com a intenção de servir ao mesmo tempo como catalisador dos conflitos externos, como também uma janela para os conflitos internos; em um dos capítulos, por exemplo, um personagem com trauma de hospitais é transportado para uma enfermaria macabra com criaturas monstruosas que tentam matá-lo, e isso serve para, claro, gerar o medo e adrenalina da cena em si, enquanto ele tenta sobreviver, mas também joga uma luz sobre aspectos da mente desse personagem, assim como seu passado.
A Mansão, com seus labirintos intermináveis, corredores infinitos e verdades secretas, serve como uma representação física do subconsciente; um lugar perigoso e inescapável que esconde coisas muitas vezes terríveis, mas que precisam ser encaradas.
Enquanto os personagens atravessam os cômodos da Mansão, eles também desbravam suas próprias mentes. Às vezes, não gostando nem um pouco do que encontram.
4. O personagem do alquimista possui características que remetem a figuras clássicas do gênero de terror. Quais influências literárias ou cinematográficas contribuíram para moldar essa figura?
Ele foi construído tendo como base a ideia clássica de um mago detentor de conhecimentos arcanos, um estudioso que alcançou verdades ocultas do mundo, ou até um cientista louco que tem muito mais poder do que deveria. O Eremita, a carta do tarô, foi uma grande influência para a criação do personagem, em muitos ângulos, até como uma pessoa que vai iluminar o caminho e te guiar; no caso do livro, essa iluminação vem com um preço alto a ser pago.
Além disso, o conto “A Casa de Astérion” serviu de influência direta para a criação do alquimista. No conto, Jorge Luis Borges conta a história do mito do Minotauro a partir da perspectiva do monstro, onde ele fala sobre o labirinto não como sua prisão, mas como seu lar. Neste sentido, o alquimista é o minotauro do livro; o residente da Mansão, mas também seu maior prisioneiro. O minotauro do labirinto.
5. Em O Sonho da Borboleta, os personagens enfrentam medos e traumas pessoais. Qual é o papel dessas experiências na construção da narrativa e no desenvolvimento dos personagens?
Dizem que só conhecemos alguém de verdade quando ele está no fundo do poço. Não sei se isso é real para pessoas, mas certamente se aplica a personagens. Quanto mais conflito, quanto mais estresse, quanto mais dilemas e dúvidas, mais o leitor consegue enxergar quem aquele personagem é de verdade.
Uma escolha feita sob pressão diz muito mais sobre um personagem do que mil monólogos de cem páginas. Então essas experiências traumáticas servem como combustível para o desenvolvimento dos personagens, mostrando o melhor e o pior de cada um. Sem falar que, como a Mansão cria situações a partir dos medos deles, as cenas nunca são puramente ação, ou puramente reflexivas; o mundo interno e externo se misturam até ficarem quase indistinguíveis.
Mas além do desenvolvimento dos personagens em nível individual, essas situações extremas também servem como impulso para conflitos entre eles; inimizades são criadas, alianças são formadas, o grupo de pessoas que, em teoria deveria estar unido para fugir, acaba se dividindo e agora, além dos perigos da Mansão, eles também devem temer uns aos outros.
6. Em sua opinião, o que torna o terror psicológico tão eficaz na literatura, especialmente em um cenário como o Halloween?
O terror tem uma característica muito interessante de tocar em assuntos que geralmente buscamos nos afastar. O que gera medo, repulsa, indignação, ou simplesmente o que não gostamos de admitir que somos no fundo. Ao invés de recuar desses temas, o terror mergulha neles, os explorando e nos ajudando a explorá-los, de formas que talvez não fizéssemos em outras situações. Sendo assim, o terror psicológico, ao tocar em questões delicadas, consegue gerar uma certa catarse no leitor, saciar nossa curiosidade e também nos ajudar a lidar com lados mais sombrios de nossa própria mente.
Na questão do Halloween, isso é algo que fica mais intensificado pois é uma época em que o público está mais aberto a experiências “macabras”, e a se aventurar em assuntos sobre morte, o grotesco, e o assustador, no geral.
7. Além de O Sonho da Borboleta, você já escreveu outros livros e microcontos no gênero do suspense e terror. Como você vê a evolução do seu estilo e abordagem nos diferentes trabalhos?
A escrita, assim como qualquer ofício, melhora com a prática. Escrevo há alguns bons anos, e meus trabalhos vêm evoluindo comigo, tanto na narrativa em si, quanto na construção da trama, dos personagens, e até nos assuntos abordados. Ao ler meus livros e contos antigos percebo as diferenças nas escolhas de palavras, em como a história se desenvolve, e nas ideias que coloquei no papel, apesar de continuar amando cada um dos meus lançamentos passados.
O fato de minhas publicações anteriores terem sido contos também entra como um diferencial. Enquanto O Sonho da Borboleta é um romance, as outras histórias que escrevi eram consideravelmente mais curtas, e por isso também precisavam de um desenvolvimento diferente, fazendo com que elas tivessem sabores distintos.
Isso também se estende aos microcontos que público na internet. Como são narrativas extremamente pequenas, o desenvolvimento é outro, a profundidade é outra, até a forma com que construo as frases muda.
Então, apesar de os anos terem me dado mais experiência na escrita, acredito que a criação de microcontos, contos e romances são exercícios distintos que exigem atenções em aspectos diferentes. No fim, a maneira com que abordo a criação dessas três categorias é única para cada uma.
8. Quais foram os maiores desafios que encontrou ao escrever um livro que explora o medo e o psicológico dos personagens?
Como escrevo terror há muito tempo – comecei quando eu tinha 12 anos de idade, se não estou enganado –, a parte de criar situações que dão medo não me abala mais. É algo quase natural a esse ponto, para ser sincero. Dificilmente me assusto com algo.
Acho que meu maior desafio ao explorar o psicológico dos personagens não foi ficar com medo ou traumatizado, mas sim criar personagens verídicos com vidas internas ricas e que fossem o mais próximos de pessoas reais quanto eu podia.
Cada pessoa é um mundo, não só a nossa persona, a máscara que mostramos para os outros. Somos criaturas cheias de contradições e que mudam constantemente. Criar personagens que tinham essa qualidade, enquanto permaneciam com uma lógica interna consistente por toda a história foi, de longe, o aspecto mais difícil de lidar ao mergulhar na mente deles.
9. Para os leitores que ainda não conhecem sua obra, quais sentimentos ou reflexões espera despertar com O Sonho da Borboleta?
A maior reflexão que desejo que os leitores tenham ao ler O Sonho da Borboleta é “Quem eu sou?”. Porque é dessa pergunta que as maiores revelações surgem, e também as maiores mudanças.
Além disso, quero que eles sintam muito medo, é claro hahah. O livro é cheio de mistério, suspense, adrenalina e até romance! Busquei despertar um leque de emoções diferentes com essa história, fazendo com que os leitores não saibam o que lhes espera ao virar cada página.
10. Por fim, como você vê a importância de publicações independentes e de editoras como a Qualis para autores que desejam explorar o terror e o suspense?
O terror e suspense são gêneros que, apesar de instigarem muito o público e possuírem grande demanda, ainda assim sofrem preconceito no imaginário popular. Muitas vezes eles acabam sendo marginalizados e não encontram oportunidades de publicação. Por isso, editoras como a Qualis e publicações independentes são de grande importância.
Sou muito grato à Qualis Editora por ter confiado no meu trabalho para publicar um livro de terror, me dando liberdade plena para experimentar e explorar as potencialidades desse gênero.
Editoras como a Qualis criam um cenário literário mais diverso e plural, onde o terror não é apenas um gênero, mas um campo de investigação, onde a angústia e o medo podem ser tratados de formas totalmente novas e inesperadas.
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