Autor reflete sobre o impacto da tecnologia e da inteligência artificial em uma sociedade dominada pelo mundo digital.

O artista plástico Gabriel Grecco estreia na literatura com “Smartland: o outro lado da tela”, uma obra de ficção futurista publicada pela Editora Telha. O livro explora um mundo distópico onde a tecnologia, especialmente a inteligência artificial, assume um papel central e crítico. A trama acompanha Zieg, um adolescente sugado para dentro do sistema operacional de seu smartphone junto com sua irmã, Emma. Dentro desse universo chamado Hawking OS, os irmãos enfrentam desafios impostos pelos Dumbsters, algoritmos de IA, enquanto tentam descobrir o caminho de volta para casa.

Com uma narrativa que mistura reflexões sobre a era digital e elementos de sagas icônicas como Star Wars, De Volta para o Futuro e O Pequeno Príncipe, o livro é um convite para pensar a relação entre tecnologia e sociedade. Gabriel, conhecido por seu trabalho em artes plásticas e design de capas, incorpora sua visão visual na construção de cenários marcantes e questiona o impacto do sedentarismo e do vício em telas, especialmente entre os jovens.

“Smartland” vai além do entretenimento, propondo uma crítica ao mundo digital e incentivando os leitores a refletirem sobre o tempo gasto em ambientes virtuais. Nesta entrevista, Gabriel compartilha detalhes sobre sua inspiração, o processo criativo e as mensagens que deseja transmitir com sua obra.


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Confira a entrevista:

Smartland se passa em um ambiente digital no qual a IA e os algoritmos têm um papel central. O que inspirou a criação desse mundo virtual com forte toque de crítica social?

Sou artista plástico e esse tema tem sido o foco principal da minha pesquisa artística já há alguns anos. Nas minhas pinturas e séries levanto sempre reflexões sobre o comportamento da humanidade diante das novas tecnologias e principalmente das redes sociais, e como isso tem afetado o nosso modo de viver. Paralelamente a tudo, trabalho também como comunicação, criação de conceitos e marcas. E em 2018 fui convidado por uma startup para criar um universo lúdico para crianças. A ideia era que as crianças consumissem primeiro esse universo, para depois consumirem o produto final. Daí resolvi criar um universo onde as crianças se questionassem sobre essa vida nas telas, para que elas vissem que é muito mais divertido viver fora delas. Ali, eu estava empregando de forma lúdica e divertida toda a minha pesquisa que já vinha fazendo nas artes plásticas. Quando apresentei o roteiro deste universo chamado Smartland, todos da startup logo gostaram da ideia e ficamos durante um tempo trabalhando na venda deste projeto, só que passaram alguns anos, veio a pandemia e tudo parou. Mas a história, que na época era apenas 5 capítulos, continuava ali no meu computador. E eu tinha criado um fascínio por essa história e decidi transforma-la em um livro. Fui escrevendo lentamente, no meu tempo, e a história e os personagens iam evoluindo muito junto com a tecnologia do mundo também. Tinham coisas que eu tinha que ir mudando conforme a tecnologia mudava, e eu achava isso interessante. Acabou que o público do livro deixou de ser infantil e parti mais para uma faixa de adolescentes e jovens adultos o que fez a história ficar ainda mais coesa, por abordas assuntos como sedentarismo, vício em telas, procrastinação, auto descoberta, tudo muito presente na adolescência. No final fui terminar de escrever Smartland apenas em 2023. Na verdade a história continua mas resolvi interromper para continuar em um próximo livro.

A trama aborda a “supervalorização do ambiente virtual”. Em sua opinião, o que leva muitas pessoas, especialmente jovens, a priorizarem tanto a vida digital?

A adolescências é uma fase da vida onde temos muita insegurança de tudo. Acredito que nas redes sociais através de uma espécie de um alter ego que todos nós criamos meio que “sem querer”, facilite essa interação de uma pessoa com a outra. Perdemos um pouco a vergonha de fazer certas coisas que no mundo real não faríamos. Mas isso que inicialmente parece ser legal inconscientemente vai nos deixando sempre com uma espécie de dívida com as redes. Existe um hiperconsumo e uma hiperprodução. Temos sempre que está hiperproduzindo felicidades e hiperconsumindo felicidades o que  graduativamente acaba virando uma máquina de frustração e dopamina em nosso cérebro. Uma coisa fica se alimentando da outra, e quando a gente é jovem, queremos ficar sempre nesse êxtase mental o que acaba nos dando essa prioridade a vida digital.

Você acredita que existe uma forma saudável de conviver com a tecnologia e as redes sociais, ou elas acabam sempre impondo algum custo psicológico ou social?

Sim, claro! O que tem que haver é uma reeducação. Não ser só ensinado dentro de casa desde crianças como também ser falado nas escola e fazer campanhas como fazemos do cigarro, bebida e drogas. Tudo que é maléfico tem que ter campanhas, e já está mais do que comprovado o quanto o vício de telas faz mal pra nossa cognição, gera ansiedade, depressão e falta de paciência. Vemos um alto índice de TDAH como nunca visto antes. Temos que parar de normalizar que o uso de telas de forma excessiva não é nada de mais. Temos que dar limites e saber quando estamos passando desse limite. É difícil, e entendo que às vezes, dar um celular a uma criança pode ser salvador para os pais em algumas ocasiões, mas é isso, saber a ocasião certa de deixar uma criança usar. Isso é reeducar todo mundo.

A personagem de Zieg descobre mais sobre si ao lutar para sobreviver sem as facilidades do mundo digital. Que habilidades ou percepções você gostaria que o leitor também descobrisse ao acompanhar essa jornada?

Só de estar lendo um livro, já em alguns casos, será uma descoberta. Mas o principal e fazer as pessoas refletirem que estando fora das telas podem estar perdendo muito mais do que estando preso dentro delas. O Joaquim, um dos personagens do livro fala sempre sobre olharmos mais a nossa volta, voltar a se desfrutar mais do mundo. Por exemplo, ao entrarmos em um ônibus ou metrô a primeira coisa que 90% das pessoas fazem é pegar o celular para entrar nas redes sociais. Acredito que observar as pessoas à sua volta, como agem, se comportam, ou olhar pela janela o mundo passando lá fora, seja algo muito mais enriquecedor para nós mesmos. Mas não descarto totalmente as redes sociais. Existem coisas boas, que nos ajudam de outras formas. Tudo é equilíbrio.

Como artista visual, você incorpora influências visuais em sua escrita? Poderia dar algum exemplo de como isso contribuiu na construção dos cenários e da atmosfera de Smartland?

Acho que qualquer história onde entra elementos mais fantasiosos, acaba tendo uma grande influência surrealista. Mas os elementos que descrevo em Smartland vem muito de uma influência de filmes de ficção científica das décadas de 80 e 90 como Tron, De volta para o futuro, Star Wars, Blade Runner Matrix e etc. Mas também teve muita coisa que imaginava como seria se eu estivesse dentro de um sistema. Fui programador durante muito tempo, estudei mecatrônica, eletrônica e diversas linguagens de programação da web então acho que tive uma facilidade de ver todo esse ambiente em minha mente de forma bem natural. Imaginar Smartland era uma das melhores partes para mim durante todo o processo do livro. Na verdade, era um lugar onde eu gostaria de estar em alguns momentos. Quando criei Phreack Town, a cidade dentro de Smartland, a ideia era que fosse um lugar muito divertido.

A história faz alusão a uma espécie de “Matrix” particular, mas com uma pegada que também lembra o universo de O Pequeno Príncipe e Harry Potter. Poderia falar sobre as referências e influências que ajudaram a moldar essa obra?

Sim, não tinha como não pensar nessas obras quando eu estava escrevendo Smartland. O Pequeno Principe fala muito sobre um autoconhecimento, e uma visão do mundo. O Joaquim de Smartland, tem um pouco da raposa de O Pequeno Príncipe. Harry Potter, é um sucesso e tem toda aquela coisa de vários jovens juntos, tentando se aprimorar em suas técnicas, isso acontece também em Smartland. E Matrix, enfim, Smartland é uma Matrix. Quando estava escrevendo cada hora lembrava de uma dessas história e de outras também, vinha até Moby Dick em mente.

Smartland propõe uma reflexão sobre o sedentarismo e o vício em telas. Como a literatura pode, na sua visão, ajudar na conscientização sobre esses desafios?   

O vício das telas consequentemente traz o sedentarismo. Quando lemos estimulamos nosso cérebro de diversos modos, principalmente o cognitivo que é um dos principais pontos que esse vício em telas afeta. Costumo dizer que nós funcionamos como um computador. Quanto mais informações armazenamos em nosso cérebro, mais dificuldade de processamento teremos. O nosso corpo naturalmente já recebe estímulos que armazenamos em nosso cérebro como informações. Desde cheiros, gostos até símbolos visuais e sons. Se pegarmos um TikTok, esses estímulos são intensificados um milhão de vezes mais. Em um computador quando armazenamos muitos arquivos de vídeo, fotos, arquivos temporários, aplicativos, uma hora o processamento de tudo isso fica lento. E com o nosso cérebro é a mesma coisa. Em algum momento o nosso processamento acaba ficando lento ou às vezes não conseguimos processar. Isso vem acontecendo constantemente no mundo em geral.

Para leitores que se identificam com Smartland, especialmente jovens que passam muito tempo online, que mensagem você gostaria de deixar sobre como viver de forma mais equilibrada com a tecnologia?

Acho que olhar mais a nossa volta. Antes de pegar o celular pra matar o tempo, vamos tentar dar uma chance para o que podemos fazer de forma analógica, nem que seja, ver um filme, ler um livro, tocar um instrumento, escrever, desenhar, conversar presencialmente com alguém ou qualquer outra coisa física. É muito importante voltarmos a pensar o mundo desta forma novamente, e não desdenhar disso tudo que foi tudo isso que nos trouxe até onde estamos agora. O estimulo a criatividade e o exercício a paciência é, e sempre será essencial para que continuemos vivendo. Principalmente vivendo com mais felicidade.

Por fim, você já tem planos para futuros trabalhos na literatura ou outras áreas de criação?

Sim. Tenho alguns. Tenho já um outro livro pronto, Infantil, onde falo sobre o preconceito de uma forma divertida e saudável. Tenho um triller que comecei a escrever já há um tempo, mas ainda está bem no início, onde falo sobre uma artista plástico serial killer, um crítica ao mundo da arte. Tenho um livro de contos escrito pelo meu saudoso pai que estou reescrevendo e pretendo lançar também como obra póstuma. E é claro, a continuação de Smartland que já está explodindo em minha mente, e é no momento uma grande paixão.



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