
O ano de 1968 é um marco histórico, um momento de efervescência cultural, política e social que reverbera até hoje. Em seu novo romance, 1968: Centelhas Sob Palha Seca, Edvaldo Silva revisita este período tumultuado e inspirador, criando uma narrativa que une amor, resistência e música em um cenário global marcado pela repressão e pelos sonhos de transformação.
Na trama, os protagonistas Beatriz e Thierry representam a força do afeto em tempos de crise, enquanto suas trajetórias se entrelaçam com eventos históricos emblemáticos, como os protestos de maio na França e as lutas clandestinas no Brasil. Com delicadeza e precisão, Edvaldo constrói personagens que, apesar de suas diferenças culturais e sociais, encontram na arte e na luta por justiça uma conexão profunda.
Nesta entrevista, o autor reflete sobre o legado de 1968, os desafios de reconstruir períodos históricos e as mensagens atemporais que deseja transmitir aos leitores.

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Confira a entrevista:
O que o motivou a revisitar o ano de 1968 e abordar, em particular, as questões sociais e políticas desse período?
O ano de 1968 é um marco histórico que transcende fronteiras e representa uma convergência global de revoltas sociais, políticas e culturais. Meu interesse em revisitar esse período veio da sua relevância enquanto catalisador de mudanças que ecoam até hoje, como as lutas por direitos civis, liberdade de expressão, igualdade racial e de gênero. Além disso, explorar as contradições do período — um tempo de sonhos revolucionários, mas também de repressões brutais — me pareceu uma oportunidade rica para refletir sobre os desafios e esperanças de uma geração que queria transformar o mundo.
Como foi o processo de criar personagens que, apesar das diferenças, se conectam intensamente nesse contexto de luta e esperança?
A construção de Beatriz e Thierry partiu da ideia de que o amor é um elemento narrativo poderoso, especialmente em tempos de crise e transformação. Ao longo da História, momentos de grande turbulência social e política foram marcados pelo florescimento de relações de amor que desafiaram as expectativas e resistiram às imposições externas. O amor, ao se manifestar em seu aspecto mais puro e profundo, torna-se um símbolo de uma humanidade que não se dobra à opressão.Ao moldar seus passados e personalidades, busquei contrastar suas origens — ela, uma jovem brasileira, branca e privilegiada de uma elite política; ele, um imigrante negro, músico e africano que carrega as marcas do colonialismo — mas também destacar aquilo que os une: um desejo comum de justiça e liberdade. A conexão entre eles nasce da vulnerabilidade compartilhada diante de um mundo desigual e da coragem de enfrentar os desafios impostos tanto pela sociedade quanto pelo amor que desafia barreiras culturais e raciais. Acredito que fui bastante feliz na construção destes personagens centrais para meu novo romance “1968: Centelhas Sob Palha Seca”.
Qual foi o maior desafio em reconstruir um período histórico tão marcado por repressão e resistência? Houve algum evento ou fato histórico que foi mais complexo de adaptar para o romance?
Recriar o clima de tensão e esperança do período foi desafiador, especialmente ao buscar equilibrar fidelidade histórica com as demandas narrativas da ficção. Um dos eventos mais complexos de adaptar foi a articulação dos movimentos de resistência no Brasil liderados por figuras como Carlos Marighella, que operavam sob extrema clandestinidade e suas relações com os personagens fictícios do meu livro. E ao mesmo tempo, incorporar os protestos de maio de 1968 na França exigiu cuidado para capturar a efervescência cultural e ideológica sem romantizar excessivamente os conflitos. O desafio foi construir um fio narrativo que conectasse esses dois contextos distintos sem perder a autenticidade, originalidade e mantendo a atenção do leitor constantemente.
Em sua visão, quais aspectos dos movimentos de 1968 ainda influenciam os jovens e as lutas sociais de hoje?
Os movimentos de 1968 plantaram sementes de muitas pautas contemporâneas. A busca por igualdade racial e de gênero, o questionamento de estruturas autoritárias e a luta pela liberdade de expressão continuam centrais nos debates atuais. Talvez o legado mais duradouro seja a ideia de que a juventude tem o poder de desafiar o status quo e exigir mudanças estruturais, algo que ainda vemos em movimentos como Fridays for Future, Black Lives Matter e protestos estudantis pelo mundo. Contudo, os jovens de hoje enfrentam novos desafios, como a polarização digital, que exigem uma ressignificação das ferramentas de luta e resistência.
A música é um elemento importante na trama, e Thierry é pianista. De que forma a arte, especialmente a música, auxilia no desenvolvimento dos personagens e na construção do cenário político da obra?
A música em “1968: Centelhas Sob Palha Seca” funciona como um elo entre o pessoal e o político. Para Thierry, o piano é um refúgio e uma forma de expressar sua identidade em meio a um mundo que tenta silenciá-lo. Para Beatriz, a música representa uma descoberta de novas sensibilidades e do próprio amor. No cenário político, a arte é uma voz de resistência, uma forma de transmitir mensagens de liberdade e questionar o status quo. Incorporar elementos musicais também ajudou a capturar o espírito da época, já que os anos 1960 foram profundamente marcados por movimentos musicais revolucionários.
O livro traz, além do contexto histórico, um olhar para dilemas internos dos personagens. Como você equilibrou o drama histórico com os conflitos pessoais para torná-los relevantes para o leitor contemporâneo?
O equilíbrio veio da compreensão de que grandes eventos históricos são vividos de maneira profundamente pessoal. Os dilemas internos de Beatriz e Thierry — suas inseguranças, medos e esperanças — permitem que o leitor veja os impactos humanos do que, muitas vezes, são tratados apenas como fatos históricos distantes. Trabalhei para entrelaçar suas jornadas pessoais com os eventos maiores ao redor, de forma que os dramas históricos amplificassem os conflitos individuais e vice-versa. Acredito que, ao humanizar a história, é possível fazer com que ela ressoe mais fortemente com leitores contemporâneos.No Brasil de hoje, um novo ciclo de polarização política traz à tona a relevância do amor e das relações em tempos de crise. Em uma sociedade profundamente dividida, onde os discursos de ódio e intolerância ganham cada vez mais espaço, relacionamentos profundos podem ser vistos como um ato de coragem. Não apenas como uma forma de intimidade emocional, mas também como uma resistência simbólica à fragmentação social. No entanto, há algo revolucionário em manter relações de respeito, afeto e diálogo em meio ao caos político.
Você pretende explorar outros períodos históricos em futuros projetos ou há outros temas que gostaria de abordar na ficção?
Explorar outros períodos históricos é algo que me fascina. Meu primeiro romance “Além da Fumaça” se passa entre Alemanha e Brasil durante o crepúsculo da Guerra Fria, e a experiência de escrever e lançar livro assim foi bastante gratificante! Além das vendas muito boas nos formatos impresso, ebook e audiolivro, eu fui finalista do Prêmio ABERST 2023, na categoria romance de suspense e ainda recebi a Menção Honrosa no Latino Book Awards 2023, na categoria romance em língua portuguesa.E a história está repleta de momentos de transformação que têm um potencial narrativo riquíssimo. No entanto, também tenho interesse em temas contemporâneos, como os dilemas éticos da inteligência artificial, a crise climática e os impactos psicológicos do mundo digital. Minha intenção é continuar explorando histórias que conectem o passado e o presente, sempre buscando lançar luz sobre a condição humana e os desafios do nosso tempo.
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