Em entrevista exclusiva, Michael Paul Zeitlin revela os desafios e aprendizados de sua autobiografia “Apesar disso, rolou”.

Michael Paul Zeitlin, engenheiro civil e ex-secretário de Transportes de São Paulo, narra uma vida marcada por superações, desde sua fuga do regime nazista aos dois anos de idade até seu papel como protagonista de grandes obras no Brasil. Em sua autobiografia, Apesar disso, rolou (Editora Adonis), ele reflete sobre suas conquistas, as memórias da infância e os desafios pessoais e profissionais que moldaram sua trajetória.
Na entrevista, Michael fala sobre o impacto emocional de revisitar suas memórias e a importância de construir uma narrativa que valorize a ética em meio a grandes responsabilidades. “A vontade de liderar grandes projetos não pode suplantar o que é ético. Há uma diferença entre Projetos de Governo e Projetos de Estado”, afirma.
Ao longo da conversa, ele também compartilha conselhos inspiradores para imigrantes e jovens em busca de realização profissional. “Escolha onde quer chegar e se dedique estudando. Este patrimônio ninguém conseguirá tirar de você.”
Com 256 páginas, Apesar disso, rolou é uma leitura que mescla lembranças pessoais, história política e lições de vida, ideal para quem busca inspiração e compreensão sobre os caminhos da imigração e da liderança no Brasil.

COMPRE AQUI: https://amzn.to/3Za6D7N
Entrevista:
Apesar disso, rolou reflete uma trajetória de vida marcada por desafios e superações. O que o motivou a compartilhar sua história com o público neste momento?
A pergunta é muito oportuna pois permite esclarecer dois momentos distintos. De um lado há o meu desejo de compartilhar minha história, baseada em alguns “pilares” e que começou a ganhar força quando me desliguei de atividades profissionais, pouco antes da explosão da pandemia – 5 ou 6 anos atrás.
De outro lado há o esforço de divulgação do livro para várias camadas do público e que é empreendido pela Editora Adonis em colaboração com a LC Agencia e que conta de minha parte com a disponibilidade de tempo para esclarecer dúvidas e ressaltar alguns pontos. Este é o momento que estamos vivendo agora.
O que o senhor mais se lembra sobre a chegada ao Brasil? Como foi adaptar-se a um país e cultura tão diferentes na época?
Tenho poucas lembranças sobre a chegada ao Brasil, uma vez que só tinha dois anos e meio. O que sei é fruto de narrativas de minha mãe. Em casa falávamos russo e comecei a aprender pouco de alemão quando embarcamos para o Brasil. Aqui nos primeiros dias estava mudo fora de casa, onde continuávamos falando russo. A oportunidade de brincar com outras crianças resultou em eu começar a falar português muito antes do que minha mãe ou meu padrasto. Passei a servir de tradutor para eles, principalmente para minha mãe.
Minhas primeiras impressões de que éramos diferentes começaram quando eu passei a ficar interno nos colégios maristas que minha mãe descobriu.
Sua carreira na engenharia civil se destacou em importantes obras, como o trecho Oeste do Rodoanel. Como foi para o senhor participar de projetos de grande impacto no Brasil?
Grande alegria e sensação de auto realização. O cargo de Secretário de Transportes de São Paulo, tendo como Governador a pessoa fantástica de Mario Covas foi uma enorme oportunidade para realizarmos entre outras o trecho Oeste (37 km) do Rodoanel. Eu já havia ocupado o cargo de Diretor da EAESP/FGV, já havia obtido o título de Ph.D. (doutorado) em Stanford, eu sabia avaliar a importância desta obra, que serviu aos governos que se seguiram como prova de que era factível construir o Rodoanel Metropolitano.
Quais foram as maiores dificuldades que enfrentou ao longo da sua carreira, especialmente como imigrante e sobrevivente da Segunda Guerra Mundial?
Ao longo de minha carreira profissional nenhuma dificuldade causada por quem era. As dificuldades a que se refere a pergunta ocorreram bem mais cedo e são de caráter íntimo. Dou exemplos – meu sobrenome Zeitlin é o sobrenome de meu pai; minha mãe e meu padrasto tinham como sobrenome Marianchik. Explicar para os colegas porque meu sobrenome não era igual ao de minha mãe era muito complicado e incomodo. No Brasil não havia, na época, lei do divórcio. Admitir que minha mãe havia casado 2 vezes estava além de minha habilidade.
Posso mencionar que na época do Vestibular o ITA era uma oportunidade que eu não podia usufruir pois não era brasileiro nato. O mesmo ocorreu com o Instituto Rio Branco, diplomacia, que também aceitava apenas brasileiros natos.
No livro, o senhor menciona a influência de sua família. Que legado de seus pais e avós acredita ter levado consigo ao longo da vida?
A morte de meu avô paterno e de meu irmão mais velho, nos campos de concentração nazistas me atingiu quando vi minha mãe chorando ao ler carta da Cruz Vermelha Internacional. Na época eu tinha 7/8 anos de idade e a reação foi de uma criança.
Afortunado pois eu gostava de estudar. A sensação de estar entre os 3 melhores alunos em qualquer classe era fundamental para minha sensação de segurança. Eu realmente me sentia como parte do grupo.
Considerando o cenário atual, que conselho o senhor daria a imigrantes e refugiados que estão começando uma nova vida no Brasil?
Trabalhar, estudar, procurar caminhar na direção do objetivo que tem em mente. Escolha onde quer chegar e se dedique estudando. Este patrimônio ninguém conseguira tirar de você.
Como foi relembrar a infância e revisitar as memórias do período da guerra para escrever a autobiografia? Houve algum aspecto particularmente doloroso ou gratificante durante esse processo?
A produção do conteúdo do livro ocorreu de maneira que eu não havia previsto. Minha ideia era escolher alguns fatos que considerava importantes e fazer uma coletânea de crônicas sobre estes fatos. Seria muito parecido com meu primeiro livro – “Menina dos Olhos” – uma coleção de artigos. A interação com o pessoal técnico da Editora Adonis serviu para que eu concordasse em fazer ligações entre os pilares. A história não pode ter pulos. Um exemplo esclarece – perguntaram-me onde estava o personagem Bobby? (meu irmão mais velho). Eu respondi “morreu”. Os alemães o mataram. “Você precisa contar a seus leitores”. Gratificante foi quando mais senhor do projeto do livro em estado mais adiantado, percebi que tinha oportunidade de analisar erro cometido na busca de cargos cada vez mais importantes. A vontade de liderar grandes projetos não pode suplantar o que é ético. Há uma diferença entre Projetos de Governo e Projetos de Estado.
Para além de sua carreira e do serviço público, quais são as lições mais valiosas que o senhor espera deixar para as gerações futuras por meio de Apesar disso, rolou?
O livro é muito egoísta, eu escrevi sobre mim. É importante ressaltar que estou casado há 60 anos com pessoa extraordinária, inteligente, poliglota, neta de italianos para quem estudar também é muito importante. Conseguimos ter 3 filhos que por sua vez nos deram 6 netos. Todos muito aplicados, estudiosos, cada um a sua maneira, no país que escolheu. Este é o prêmio por ter deixado um exemplo. Lutam por sucesso mas cada um busca seu ideal.
Deixe um comentário