Em uma distopia provocante, o estreante autor reflete sobre a humanidade e suas interpretações perigosas diante do desconhecido.
Bruno Lago acaba de lançar seu primeiro romance, O Descobrimento da Terra, pela plataforma digital da Amazon. Publicitário por formação e autor do blog “Crise nas Infinitas Nerdices”, Bruno se utiliza da cultura pop — como quadrinhos, desenhos animados e livros infantojuvenis — para abordar temas complexos, como política e questões sociais contemporâneas. Esse estilo se reflete em sua obra de estreia, uma ficção distópica que traz a humanidade em confronto com homens dourados e alados, seres misteriosos interpretados como anjos.
Nesta entrevista, Bruno fala sobre suas influências, o processo de criação do livro e as mensagens que deseja transmitir através dessa narrativa provocante, inscrita no Prêmio Kindle de Literatura.

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• “O Descobrimento da Terra” é o seu primeiro livro publicado. O que o motivou a escrever essa obra, e como surgiu a ideia inicial para a história?
Minha ideia para criar essa história é usar a ficção científica para falar sobre racismo para quem mais precisa ouvir que somos nós brancos. Fazendo um paralelo desse futuro distópico com o que aconteceu na época das navegações para tentar mostrar o que deveria ser óbvio, mas que infelizmente para muitas pessoas não é: o que os europeus começaram a fazer naquele momento não foi algo legal, e teve consequências terríveis até hoje para os descendentes desses povos que foram invadidos.
• Sabemos que você também é o autor do blog ‘Crise nas Infinitas Nerdices’ e escreve para jornais. Como esses trabalhos influenciam sua escrita e o processo criativo em “O Descobrimento da Terra”?
Bom, digamos que o universo nerd está bem conectado a minha obra. Posso citar duas obras nerds que com certeza influenciaram bem a maneira como eu elaborei a minha história. A primeira delas e, talvez seja a mais óbvia, seriam os X-Men da Marvel. Claro que não na parte dos uniformes coloridos e superpoderes mutantes, mas na essência das suas histórias. Usando essa lente mais fantástica, os X-Men falam sobre o preconceito estúpido contra minorias. É o que é abordado nos quadrinhos, nos filmes, nas animações e é o que o que eu pretendo trazer pra esse universo. A segunda obra muito inspiradora foi a série de livros Crônicas de Gelo e Fogo que inspirou a série Game of Thrones. Essa foi mais na maneira de contar a história em si. Assim como George R.R. Martin fez nos seus livros, eu também optei por escrever a história através de diferentes pontos de vista.
• Quais são os autores e livros que mais influenciaram sua jornada como escritor? Há algum autor em particular que você considera uma grande inspiração?
Além do George R.R Martin que eu falei anteriormente, não tem como não deixar de falar em Machado de Assis. Certamente o maior escritor que o Brasil já teve! Dom Casmurro é daquelas obras primas que todo mundo precisa ler antes de morrer. Um outro livro que também acho muito bom e que adorei ler foi Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.
Em questão de autores inspiradores dentro do mundo nerd, com certeza é preciso citar Tolkien. A capacidade dele em criar o universo da Terra-Média com as diversas línguas e culturas é simplesmente impressionante. A riqueza dos detalhes, a maneira como faz um universo cheio de seres fantásticos e mágicos parece algo vivo e real. Parece mesmo que o universo sempre esteve ali.
Mas tem um autor que foi uma inspiração um pouco mais direta. Um autor nacional que eu li quando estava ali na adolescência. Jean Angeles, que escreveu a trilogia infanto-juvenil Jack Farell. Essa série de livros seguiu um pouco na onda daquele momento, com os livros de Harry Potter fazendo sucesso. Então, o personagem era aquele adolescente com uma relação com o mundo místico, só que nesse caso ele vinha de linhagens de cavaleiros cruzados em vez de bruxos. Só que o autor optou por trazer referências históricas. Misturando História com elementos fantásticos, especialmente a partir do segundo livro, quando ele dá para o protagonista a habilidade de viajar no tempo através de um relógio mágico. Eram livros que eu gostava muito. E no terceiro livro, a história abordou a história do Império Asteca e a maneira como as pessoas daquele período enxergaram os espanhóis como seus deuses retornando. Nesse livro, os deuses são reais, então fica bem clara a diferença entre o deus Asteca Quetzalcoatl e o conquistador Hernán Cortés. Assim, veio a ideia de trazer uma modernização dessa confusão no meu livro.
• Seu livro aborda um futuro distópico, com temas que parecem dialogar com questões atuais. Quais eventos ou preocupações do mundo real inspiraram a construção do universo de “O Descobrimento da Terra”?
Bom, eu acho que já deixei bem claro que o elemento racial está bem presente no livro. Porém, enquanto estava escrevendo o livro, fomos ameaçados por um certo inimigo pequeno e extremamente mortal e que teve um impacto profundo no mundo todo. Claro que eu estou falando do coronavírus! Tudo o que estava acontecendo naquele momento, a maneira como o governo da época estava agindo com relação à pandemia. Quase como se estivesse do lado do vírus em vez de estar ao lado do próprio povo que o elegeu. E claro que isso impactou no meu processo de criação.
• A narrativa do seu livro envolve elementos de ficção científica e fantasia, como a chegada de homens dourados e alados. Como foi o processo de criação desses elementos e a construção do mundo onde a história se passa?
Tudo começou com a mensagem que eu gostaria de passar e para quem eu queria passar. A partir de que eu gostaria de explicar o que é racismo para pessoas que sempre enxergaram isso como um grande exagero, um “mimimi”. A melhor maneira para isso seria criar um futuro próximo o suficiente para que esse grupo de leitores consigam se identificar, imaginar os personagens como podendo ser seus amigos, familiares e vizinhos e, a partir disso, trazê-los para dentro de um universo para viver situações parecidas com as que os povos africanos e os do continente americano sofreram na mão dos europeus durante as navegações.
O próximo passo seria imaginar quem seria esse povo invasor, esse povo conquistador. Bom, como alguns povos especialmente aqui no continente americano confundiram o povo invasor com deuses. Dei o exemplo dos Astecas antes e a gente sabe como essa confusão custou caro para esse povo. Considerando o quão grande é o Cristianismo, juntando católicos e protestantes, a melhor maneira de atualizar essa confusão seria através da figura de falsos anjos. A partir disso, eu fui buscando criar a cultura deles trazendo muita referência aos europeus como eram naquele período ao mesmo tempo em que tentava deixá-los quase como um oposto a nós em muitos aspectos. Para que isso causasse uma repulsa. Então, muitas coisas que para nós são naturais, para eles será visto como algo abominável, selvagem.
• Você pode nos contar um pouco mais sobre os personagens principais do livro? Como foi o desenvolvimento deles durante o processo de escrita?
Ao todo, a história tem sete protagonistas que vão se revezando para ser o nosso olhar nesse universo. Eles são moradores de uma pequena cidade fictícia chamada São Raul.
A primeira que nós conhecemos é Yoko. Ela é dona de uma fazenda e também política. Quando a história começa, ela acabou de perder a eleição para o Adam e obviamente está extremante chateada com isso. Ela é muito inteligente e muito religiosa também. É daquelas pessoas que vão o tempo inteiro na igreja rezar. Essa combinação faz com que ela seja uma das primeiras pessoas a estranhar o comportamento dos supostos anjos, especialmente do líder deles que deveria ser Jesus. Isso faz com que ela vá confrontá-los para descobrir a verdade, mas isso pode ser extremamente perigoso para ela.
Outro que nós acompanhamos é o menino Bem, que é filho do prefeito que acabou de tomar posse e neto do prefeito anterior. Então, ele tem a certeza que faz parte de uma espécie de família real de São Raul, acredita que sua família é melhor do que todos os outros moradores da cidade. Ele é extremamente mimado, se orgulha dos seus pertences importados. Ao longo do livro, ele vai ter uma lição de humildade “na marra” para conseguir lidar com as consequências da invasão.
Também temos o Seu Vicente. Ele é o bibliotecário da cidade e é uma pessoa bem solitária. Seu único amigo é seu assistente que é muitos anos mais jovem que ele, então o único assunto entre eles acaba sendo os livros. O Seu Vicente vive em função dos livros. Sua maior tristeza é ver a biblioteca vazia e os livros abandonados. Por isso, ficou extremamente feliz logo que os tais anjos chegaram e começaram a encher a biblioteca. Para o Seu Vicente, só importava que os livros estavam sendo lidos novamente. Mesmo que, no fim das contas, os invasores só estivessem aprender mais sobre a cultura local para facilitar a invasão.
Temos também Ariel, que é uma prostituta que tem seus próprios motivos para estar nessa profissão. Não é pelo prazer sexual, esse ela definitivamente não encontra por lá já que quem vai lá não está interessado em satisfazê-la, mas satisfazer somente aos seus próprios prazeres; não é pelo dinheiro, apesar de ela não achar ruim, afinal paga as contas. O que ela gosta é de ter informação privilegiada, do tipo que vai lhe dar algum tipo de vantagem. Então, ela busca ter clientes influentes na cidade. Tudo está indo muito bem nos planos dela, porém a chegada dos supostos anjos muda tudo já que esses seres que estão dominando o planeta parecem ver o sexo como algo inferior e primitivo, o que a faz voltar à estaca zero.
Temos também o professor Mohamad, que é muçulmano com seu nome batizado em homenagem ao profeta Muhammad (ou Maomé como a gente chama no Ocidente). Quando o suposto Jesus aparece com os tais anjos em volta, ele entra em choque. Começa a questionar a sua própria fé. A primeira coisa que ele faz é correr para casa e agarrar o Alcorão com toda a força possível. Ao longo do livro, ele será uma das pessoas que mais vai ser contrária à dominação dos tais anjos.
Também há o padre Ramirez que comanda a igreja da cidade. Ao longo do livro, ele vai estranhar as atitudes dos tais anjos. A princípio, como um sentimento de frustração. Como se tivesse conhecido uma celebridade pessoalmente e ela não fosse exatamente como se esperava, essa era a sensação que o padre teve ao conhecer aquele suposto Jesus. Porém, ao longo do livro, ele se vê num dilema. Começa a se perguntar se, como padre, ele deveria questionar o que aqueles seres estavam fazendo, já que era diferente do que estava na Bíblia, ou se deveria seguir o que diziam e apoiá-los incondicionalmente, afinal supostamente ainda seriam as mesmas figuras nas quais ele sempre acreditou.
Por fim, temos a Papa Madalena. Pela primeira vez, a Igreja Católica escolhe uma mulher para assumir o papado e tomar seu lugar no Vaticano. Ela era originalmente Alejandra e nasceu em São Raul. Um grande marco para o catolicismo, é que se avalia entre as pessoas do planeta. E a Papa Madalena tem muito orgulho de representar esse marco. Sabe da importância que isso tem não só para a Igreja, mas para as mulheres como um todo. O problema é que infelizmente esse grande momento de evolução é quebrado pela chegada de supostos anjos. E, aí, quando o tão prometido retorno de Jesus acontece, pelo menos é o que todos acreditavam, a papa perde sua função já que a figura máxima da Igreja passa a ser aquele que diz ser Jesus. Isso faz com que ela sinta raiva de Deus por ter mandado seu filho justamente no grande momento de evolução para a Igreja, mesmo sabendo que isso é errado e tendo dificuldades de admitir até para si mesma. À medida em que vai percebendo a verdade, ela vai tendo mais e mais vontade de expulsar esses seres para retomar seu antigo posto.
Além desses personagens humanos, há também espécies cartas escritas por esse falso Jesus, que na verdade se chama Garmoklan e é o capitão-mor da expedição que foi até o planeta. As cartas são destinadas ao governante do planeta conquistador Grappis, que é o Nobre Líder Qorron IV. As cartas servem para contar o que está acontecendo do ponto de vista deles e é por onde se vai conhecendo a cultura desse povo e até que ponto vai a arrogância e o desdém que eles têm em relação a nós.
• A escrita de um romance distópico exige uma visão crítica e ao mesmo tempo imaginativa do futuro. Como você equilibra esses aspectos em sua obra?
Vou te falar que foi difícil, viu! Acho que o mais difícil é na relação com os personagens. Quero dizer, você os cria, trabalha na história deles, nas relações deles. Não tem como não se apegar, não querer que eles sejam felizes, que tenham vidas maravilhosas. Ao mesmo tempo, você sabe que eles vão ter que sofrer! Que o universo que você criou para eles é horrível e você não vai conseguir um escudo mágico para protegê-los, por mais que você queira. Mas não faria sentido para o caminho que a história tem que seguir. Então você tem que colocá-los para encarar situações horríveis porque infelizmente é o que existe nesse universo.
• Como você vê o papel da literatura distópica no contexto atual? Acredita que esse gênero tem um impacto especial na maneira como as pessoas refletem sobre o presente e o futuro?
Olha, eu acho que quando a gente pensa no que está acontecendo no mundo, as mudanças climáticas cada vez mais intensas e quem tem realmente condição de mudar alguma coisa para tentar pelo menos frear o aquecimento global não faz nada e quando faz é pra piorar a situação, tipo combinar de incendiar vários lugares do Brasil ao mesmo tempo e deixar a gente respirando fumaça em boa parte do país; redes sociais sem qualquer regulamentação, onde notícias falsas e ataques de ódio contra minorias circulam livremente em nome da tal liberdade irrestrita. E onde privacidade virou artigo de luxo. Eu acho que se pode dizer que de certa forma, a gente está vivendo uma distopia. A questão é a gente perceber isso, e o mais importante: mudar isso para as próximas gerações.
• Qual foi o maior desafio durante o processo de escrita e publicação do livro? Houve algum momento em que você pensou em desistir?
Acho que o maior desafio para mim é a própria estrutura que eu armei pro livro. Eu queria que todos os meus personagens tivessem o seu momento de brilhar. Então, eu dividi o livro em arcos que têm a mesma premissa dos capítulos, só que dentro de cada um deles têm sete mini capítulos com os pontos de vistas de cada um dos personagens. Em alguns momentos, isso acabou virando uma espécie de armadilha, porque acontecia de eu não saber como encaixar aquele personagem no arco que eu estava escrevendo. Então, eu tinha que pensar: tudo bem, ele não está envolvido nos acontecimentos principais, mas onde ele está?
Agora, se eu pensei em desistir em algum momento, a resposta que eu tenho é: para esse livro, não! Esse livro, amo demais e nunca pensei em desistir. Mas, apesar de ser meu primeiro livro publicado, teve um outro livro que eu comecei a escrever com uns amigos quando estávamos na adolescência, mas infelizmente acabamos desistindo. Quem chegar até o final do livro, vai ver que depois dele tem um espaço onde eu falo desse momento. Porque apesar de não ter ido até os finalmente, digamos assim, foi extremamente importante para mim. Tudo começou como um trabalho de escola, certamente o melhor que eu já tive. Ter a professora certa apoiando, com certeza ajuda muito. Na nossa escola, havia aulas extracurriculares onde misturava-se alunos dos três anos do Ensino Médio para no final do semestre. Bom, o nosso projeto era apresentar um livro. Logo, ficou claro que não teria condições pra fazer um livro naquelas poucas aulas. Então, a gente começou a se encontrar nos finais de semana para escrever em cafés e nas nossas casas. Numa fase em que a gente não costuma querer saber de escola, tinha sete adolescentes se reunindo felizes e faceiros em finais de semana para basicamente fazer um trabalho de escola. É impossível não reconhecer o valor que só uma grande professora teria para conseguir algo assim. É por isso que eu agradeço a Nathalie por ter sido essa grande professora. Claro que mesmo com os encontros por fora não deu pra terminar o livro, então a gente apresentou uma espécie de making off, explicando como seria a ideia. A gente acabou escrevendo boa parte do livro, pelo que eu me lembro, porém, a história acabou ficando sem um final. Várias ideias, mas nenhuma que a gente achasse legal. No fim, ainda éramos adolescentes e adolescente têm aquele momento de começar a achar tudo chato. Se um é assim, imagine sete. Para matar a curiosidade do que seria essa história, nós falaríamos sobre versões humanizadas dos sete pecados capitais que planejariam acabar com Deus. Esses seres teriam sucesso no seu plano, só que, com isso, eles basicamente acabariam com toda a humanidade junto e, como consequência, com eles próprios. Essa é o resumo do que a gente tinha pensado. Será que teria dado certo se a gente tivesse continuado? É difícil saber, mas a experiência certamente valeu a pena.
• Como você enxerga o futuro da sua carreira literária? Já tem planos para novos projetos ou continuações de “O Descobrimento da Terra”?
Que bom que perguntou, porque na verdade minha ideia é que O Descobrimento da Terra seja o primeiro livro de uma série de cinco livros que vai seguindo mais ou menos um paralelo com que aconteceu ao longo da História tanto na África com os negros como aqui na América com os indígenas.
• Por fim, o que você gostaria de dizer aos leitores que estão prestes a embarcar na jornada de ‘O Descobrimento da Terra’? Alguma mensagem ou reflexão especial que gostaria de compartilhar?
Se você é daquelas pessoas que, quando vê uma determinada minoria reclamando pelos seus direitos, sua primeira reação é achar que é um exagero, esse livro é para você. Eu peço que pare e pense um pouco, tente se afastar um pouco do pensamento comum da sua bolha e preste atenção exatamente no que aquele grupo está exigindo, tente se colocar no lugar daquelas pessoas, compare com o que você pode fazer, se passasse pelas mesmas coisas que essas pessoas, será que você exigiria algo diferente? Será que não exigiria até mais? Se determinadas ações parecem aceitáveis, algo maquiavélico, de “os fins justificam os meios”, “é preciso fazer para o desenvolvimento”, dê uma pesquisada no Google, veja o que outros sites estão dizendo, confira agências checadoras de fatos, porque talvez aquilo possa ser uma fake news criada justamente para te deixar com mais ódio daquela minoria.
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