Em O Imortal Machado de Assis – Autor de Si Mesmo, autor revela como o escritor brasileiro antecipou conceitos da psicanálise.

Adelmo Marcos Rossi, psicólogo, mestre em Filosofia e fundador do Grupo de Pesquisa do Narcisismo, é o autor do livro O Imortal Machado de Assis – Autor de Si Mesmo. A obra, lançada recentemente, revela uma descoberta fascinante: muitos dos conceitos que Sigmund Freud desenvolveu em suas teorias psicanalíticas já estavam presentes na literatura de Machado de Assis, sob outras nomenclaturas e formas literárias.

Com uma escrita divertida, irônica e incisiva, Machado de Assis analisou a sociedade e a mente humana de uma maneira tão profunda que ele, talvez, nunca tenha imaginado que esses conceitos seriam formalizados anos depois por Freud. Adelmo Marcos Rossi se debruça sobre os textos machadianos e traça paralelos entre as obras do Bruxo do Cosme Velho e as teorias freudianas, destacando como Machado antecipou, em sua literatura, muitos dos aspectos que viriam a ser conhecidos como parte da psicanálise.

Adelmo, que já possui uma vasta experiência em estudos sobre narcisismo, mostra em seu livro como Machado utilizou o narcisismo como elemento central em sua obra desde o conto “Três Tesouros Perdidos” e como a “cura pela fala,” conceito fundamental na psicanálise, pode ser observada na forma literária em que o autor carioca tratava suas narrativas.

Nesta entrevista, Adelmo Marcos Rossi nos conta sobre o processo de escrita do livro, suas descobertas e as conexões fascinantes entre Machado de Assis e Sigmund Freud, além de compartilhar suas expectativas para o impacto dessa obra no público leitor.


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CONFIRA A ENTREVISTA:

Quando pergunto o que o inspirou a explorar as conexões entre a obra de Machado de Assis e os conceitos psicanalíticos de Freud, Adelmo Marcos Rossi revela que:

A inspiração aconteceu de modo invertido, foi uma surpresa que surgiu no final da pesquisa. Somente nesse momento percebi as associações entre os conceitos de Machado e os conceitos, sob outros nomes, de Freud. Acrescentei três páginas ao livro colocando o paralelo. Por exemplo, Rubicon corresponde ao temor da lei ou castração, e Pílades e Orestes à relação de confiança ou amor transferencial.

Ao pedir que fale sobre a descoberta de que Machado de Assis utilizou o narcisismo como elemento central em sua analítica desde o conto “Três Tesouros Perdidos”, ele explica que:

O narcisismo, além de outros sentidos, tem também o sentido de efeito invertido: “só no fim desta fala compreendi que era ridícula.” No conto “Três Tesouros Perdidos,” somente no fim o Sr. F… descobre surpreso os três tesouros que tinha nas mãos e que perdeu. Machado, jogando com a ideia de que “o doido tem razão,” adquire juízo após reconhecer que perdeu.

Quando pergunto como ele percebe a “cura pela fala” no contexto das obras machadianas e sua relação com o princípio em latim Similia similibus curantur, Adelmo comenta que:

Machado tinha o princípio homeopático desde o início. Em um texto de 1859, ele já emprega a expressão “Similia Similibus” (O Espelho, no. 7, 16 de outubro de 1859), quando tinha apenas 20 anos. Trata-se do mesmo com o mesmo. Machado era discreto, não queria passar o segredo de seu pensamento. “Venço-te com as tuas armas,” escreveu em Rui de Leão (1872). No ano de sua morte, em 1908, ele escreveu a Mário de Alencar: “A arte é o remédio e o melhor deles.” Machado se tratava pela literatura.

Ao abordar os principais paralelos que traça entre os vocábulos conceituais de Machado e os termos cunhados por Freud, Adelmo destaca que:

Esses paralelos estão nas três páginas iniciais do livro. Um dos mais curiosos é a Petalogia, ou o estudo da mentira, que trata do riso, do escárnio e da ironia — tema ao qual Freud dedicou o livro O Chiste e suas Relações com o Inconsciente. A ideia é que, rindo, fazendo ironia, dizendo de modo anedótico, a pessoa se alivia daquilo que a aflige.

Quando pergunto em que aspectos a obra de Machado de Assis pode ser considerada uma psicologia literária antes mesmo da psicanálise de Freud, ele reflete que:

Enquanto a pessoa doente fala de modo escondido em um consultório fechado, sendo interpretada pelo psicanalista, o escritor pode falar de modo escondido, trocando nomes e lugares na literatura, interpretando por si mesmo aquilo que o perturbou.

Ao questioná-lo sobre a estrutura do livro e como os leitores podem abordar os 24 capítulos independentes, Adelmo esclarece que:

A estrutura do livro não existia previamente, foi uma descoberta lenta e gradual, inclusive a ordenação dos capítulos. Se algo parece “natural” no fim, não se conhece o esforço para alcançar aquela “naturalidade.” A sequência dos capítulos forma uma lógica, mas nada impede que sejam lidos independentemente. Notas de rodapé permitem a leitura cruzada, enviando a um capítulo ou outro.

Quando pergunto sobre o maior desafio ao escrever O Imortal Machado de Assis – Autor de Si Mesmo, Adelmo admite que:

O maior desafio estava na própria descoberta. Ao começar a ler os contos de Machado, notei que certos vocábulos, como Caiporismo, se repetiam. Procurei no Google e não achei muito sentido nas explicações. Descobri que Machado havia escrito dois contos centrados nesse tema e que ele se inspirou em uma peça de teatro censurada, onde um dos censores dizia que o autor “atravessou o Rubicon.” Quase todos os conceitos de Machado existiam desde o início, incluindo a ideia de se tornar imortal por meio da literatura.

Ao pedir que fale sobre como seus estudos em Ciência de Sistemas e Filosofia influenciaram sua pesquisa sobre narcisismo e psicanálise, Adelmo revela que:

Um dia, em 2005, ao chegar numa sala de aula de uma escola de psicanálise, uma estudante me disse: “Nunca te vi por aqui, é novato?” Eu respondi que vinha da engenharia, e ela disse: “Ah, precisava mesmo um engenheiro para dar um jeito nisso.” Esse tipo de fala me fez compreender o sentido apenas em 2016, com a descoberta do narcisismo na psicanálise e a falha do narcisismo em Freud.

Quando pergunto sobre suas expectativas em relação ao impacto de sua obra no público leitor, Adelmo menciona que:

O livro traz uma nova chave de leitura para a obra de Machado. Agora, o leitor não ficará mais voltado apenas para o texto com a dúvida “Capitu traiu Bentinho?” mas fora desse plano, em um nível mais elevado, compreendendo que foi uma forma do narcisismo de Machado ser perpetuado por meio dos debates. Machado foi, na verdade, um grande jogador, que fazia o jogo com as palavras.

Por fim, quando questiono se está trabalhando em algum novo projeto literário ou de pesquisa atualmente, Adelmo revela que:

No momento, estamos investigando a literatura de Lygia Fagundes Telles, uma escritora muito semelhante ao estilo de Machado — ela declarou que estudou toda a obra de Machado. Lygia é uma pessoa que tem tal domínio da linguagem que interpreta a si mesma e jamais perderia tempo se consultando com um psicanalista.



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