Em “Cancelas do Tempo”, ele nos convida a embarcar em uma viagem introspectiva, repleta de nostalgia e reflexões sobre a transitoriedade da vida.

A busca pela essência da vida e das memórias através da poesia é uma marca registrada de Walter Medeiros, jornalista, poeta e escritor. Em sua mais recente obra, “Cancelas do Tempo”, ele nos convida a embarcar em uma viagem introspectiva, repleta de nostalgia e reflexões sobre a transitoriedade da vida. Neste bate-papo por e-mail, Walter compartilha suas inspirações, experiências e a profunda ligação entre sua trajetória pessoal e profissional com a arte da poesia.


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Quando pergunto a Walter o que o inspirou a escrever “Cancelas do Tempo”, ele me explica que:

O volume de poemas que escrevi vida afora me dava a vontade de buscar uma forma de organizá-los numa obra. Depois de várias seleções que fiz, terminei escolhendo esta que submeti à editora e findou sendo transformada neste livro e espero seja do agrado do público.

Sobre o processo de selecionar e reunir os poemas que compõem esta obra, Walter revela:

Depois de repassar e separar os poemas com a preocupação de que tivessem qualidade suficiente para tornar o trabalho apresentável, situei cada um em posição que considerei lógica. Assim, foi dada uma sequência possivelmente atraente que poderá despertar interesse aos leitores, cada um com a sua própria visão de mundo. Na minha visão, foi estabelecido o fio condutor que pode dar significado aos poemas no contexto de levar o poeta ao ambiente formal.

Pergunto a ele sobre a influência de suas memórias de infância em Mata Grande e juventude nas praias de Natal em seus poemas. Walter responde com o que imagino ser um sorriso (afinal, conversamos por e-mail):

Sim. Mata Grande é o lugar onde me acostumei com o cheiro das flores das serras; onde buscava água na fonte e na cacimba; onde ouvia os boleros dos anos 50 no rádio; onde tive a minha primeira professora, Dona Josefina Alves Canuto; onde vivi a feira de cada sábado; vi casamentos matutos; e admirava a torre da Igreja. Em Natal, vivi na juventude de cidade pacata, palco de guerra mundial, destaque na corrida espacial, tempos de construção cultural, educativa e social encantadores. Nas praias, recantos de lembranças fortes, onde bares, restaurantes e casas de shows fervilhavam, cada cena era uma boa lembrança, uma grande emoção. Tivemos a sorte de viver décadas nas quais inúmeras obras e músicas belas e importantes surgiram juntamente com seus autores e intérpretes.

Sobre as viagens internacionais, como a visita à Torre Eiffel e a noite de fados em Portugal, Walter compartilha:

Paris sempre foi um sonho desde que estudei francês nos anos 60 na obra de G. Mauger. Em 1996, estive lá por um dia numa parada rumo a Vezenobres, no sul da França. Um descuido nos fez perder o filme com as fotos da época. De lembrança, em meu álbum só o bilhete do trem e o ticket do metrô. Em 2013, voltamos lá. Aí passamos cinco dias. Com direito a cadeado na Pont Neuf e passeio pelo rio Sena. No Montparnasse, o encanto das ruas decantadas em suas histórias. Em 1996, não pudemos visitar a Torre Eiffel, pois era época das Olimpíadas de Atlanta, havia caído um avião com atletas e a cidade estava com bloqueios. Em 2013, fomos lá, subimos e admiramos tudo. E tivemos oportunidade também de vivenciar o metrô parando e desligando com ordem de abandonar o local sob ameaça de bomba. Coisas da vida que alimentam nossas memórias. Quanto a Portugal, a ligação vem desde o começo dos anos 60, quando Ângela Maria gravou o fado “Foi Deus”; Moacyr Franco gravou “Canoas do Tejo” e Roberto Carlos gravou “Coimbra”. Passei a gostar de fados. Uma amiga portuguesa, Carolina Lopes, que conhecemos em Natal, nos levou a todas as regiões de Portugal. Inclusive a Alfama, onde no Luso, aconchegante casa de fados, vivemos muitas emoções. Ouvimos Celeste Rodrigues cantar “Tudo isto é fado”, “Havemos de ir a Viana” e “Uma casa portuguesa”. E o anfitrião cantou em nossa mesa “Saudades do Brasil em Portugal”, fado de Vinícius de Moraes, imortalizado na voz de Amália Rodrigues. O primeiro verso diz muita coisa: “O sal das minhas lágrimas de amor formou o mar”. E tivemos a sorte de estar em Lisboa para assistir no teatro Polyteama o espetáculo “Amália”, uma bela encenação da vida da Rainha do Fado.

Sobre a importância da nostalgia e da memória afetiva em seus escritos, Walter reflete:

Uma importância imensa. Sou do signo de Câncer e naturalmente existe essa tendência. Entretanto, guardo incontáveis lembranças de todas as fases da vida. Procuro cuidar de não viver no passado, mas uma parte dele precisa estar presente. Exercito isto em crônicas que escrevi no meu Facebook – waltermedeiros. Sempre gostei de música e poesia, encantando-me com melodia e absorvendo as letras até das músicas mais tristes. A memória afetiva vem de muitos detalhes, inclusive da frase do para-choque do caminhão do meu vizinho em Mata Grande que dizia: “A saudade me fez voltar”. Tem influência nos meus escritos, mas existe uma dosagem razoável de escritos sem maiores influências dessa nostalgia.

Quando pergunto se há algum poema específico em “Cancelas do Tempo” que tenha um significado especial para ele, Walter destaca:

Sempre tive ligação com o mundo gráfico. Meu irmão, radialista e jornalista, também levava para casa todos os jornais e revistas locais e nacionais e eu devorava cada página. Em 1967, na Escola Industrial hoje IFRN, cursei o Ginásio e havia atividade profissionalizante. Ali, aprendi a mexer com tipos manuais e um dia cheguei a redigir um texto numa Linotypo. Sete anos depois, trabalhava no jornal Tribuna do Norte e fui secretário gráfico. Em seguida, fui presidente da Imprensa Oficial do RN, uma gráfica com 210 funcionários, e fazia questão de entender todos os processos de trabalho. Permeando tudo isso, está no livro o poema “Tipográfico” (página 97) que reúne todo o significado dos tipos e das letras para a humanidade. Uma homenagem a todos os que fizeram a história dessas letras, a começar por Gutemberg com sua criação maravilhosa.

Sobre como a experiência de revisitar o quartel onde prestou serviço militar influenciou sua decisão de publicar esta coletânea, Walter conta:

“Tempos” (página 54) foi a transferência para o papel de um sentimento marcante. Foi um momento em que, voltando àquele ambiente, parecia que estava mesmo revivendo 35 anos atrás. O cheiro do chão, o ar vindo do mar, a lembrança de 54 colegas que serviram comigo durante cerca de onze meses, as lições que aprendemos de disciplina, solidariedade, força, tudo resultou nesses versos. E ao olhar o que escrevi, senti a sensação de que havia feito algo poético. Mesmo tendo escrito tantos versos, somente depois de confirmar o agrado de pessoas qualificadas senti-me em condições de considerar-me poeta. E olhe que Natal no século passado recitava aos quatro cantos uma quadrinha que dizia: “Rio Grande do Norte / Capital Natal. / Em cada rua um poeta / em cada esquina um jornal”.

Sobre a relação entre o tempo e a poesia em sua obra, Walter revela:

Sempre gostei de poesia. No segundo ano primário, já me deparava com “Trem de Ferro” de Manuel Bandeira, marcante pois havia viajado de Arco-Verde, Pernambuco, até Natal de trem. E ali começava minha ligação com as estradas de ferro. Sei que a poesia pode transportar o leitor para viagens, o tempo também. Da mesma forma que entendo quem não se sensibiliza com a poesia. Cada um vive sua realidade. Mas creio que a poesia tem esse dom de transportar o poeta e o leitor no tempo, no espaço e na imaginação.

Pergunto a Walter sobre sua visão da transitoriedade da vida e como isso se reflete em seus poemas. Ele reflete:

A vida é para viver. Sabemos que a vida terrena é finita. Esta visão vai se tornando mais presente com o passar do tempo. A cada momento percebemos a passagem das fases. Tanto que escrevi um poema sobre aposentadoria, despedida (página 98). A sensação de que um dia terá fim contribuiu para selecionar estes poemas e realizar o livro. Procuro ter uma vida saudável e espero ainda ter muitos anos pela frente. Aí, acudo-me da vida do meu sogro que morreu em 2022 aos 106 anos.

Quando pergunto sobre sua trajetória no jornalismo e como ela influenciou sua carreira literária, Walter conta:

Minha vida profissional começou em 1973, Repórter da Rádio Cabugi. Fui Redator no jornal Tribuna do Norte e na Rádio Planalto, Chefe de Reportagem no jornal A República, Professor e Assessor de Imprensa da Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, Correspondente da Folha de S. Paulo, Assessor de Imprensa da Prefeitura Municipal de Natal, Diretor Presidente da Companhia Editora do RN (Imprensa Oficial), Chefe de Pauta da TV Cabugi, Editor Geral do jornal A Ponte (Mensário de Natal publicado nos anos noventa do Século passado), Editor Geral do jornal DOIS PONTOS (Semanário). Fui Vice-Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RN de 1983 a 1985 e Delegado do Rio Grande do Norte à Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) no biênio 1983/1984. Todos esses ambientes proporcionaram convivência com poetas, intelectuais, escritores, músicos, artistas, porém nunca fui muito agrupado como escritor e poeta. Vivi sempre com uma sensação de observador da cena, repórter, narrador. Até que passei a perceber a necessidade de assumir também estes papéis.

Quando questionado sobre quais autores ou obras literárias tiveram maior influência na sua escrita, Walter lista:

Casimiro de Abreu, Rubem Braga, Manuel Bandeira, Castro Alves, Gonçalves Dias, Vinícius de Morais, Cecília Meireles, Luiz de Camões, Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda, Augusto dos Anjos, Euclides da Cunha, Miguel de Cervantes, Machado de Assis, José de Alencar. Eis os autores sem desmerecer inúmeros outros. As obras marcantes: “A traição das elegantes” de Rubem Braga; “Iracema” de José de Alencar; “Dom Quixote de La Mancha” de Miguel de Cervantes.

Sobre o papel da poesia em tempos de adversidade e mudança, Walter acredita que:

Os tempos de adversidade e mudança são inspiradores; as dificuldades proporcionam criatividade; as adversidades sempre podem ter resultados importantes na poesia.

Para os leitores de “Cancelas do Tempo”, Walter espera que:

Desejo que “Cancelas do tempo” transforme-se num espaço aconchegante que proporcione a cada leitor experiências sensíveis capazes de fazer cada um voltar a ler algum dos versos que porventura lhe tocar.

Pergunto a Walter sobre seus planos para futuros projetos literários, ele revela:

Espero que os leitores gostem e, tendo oportunidade, novos poemas virão. Antes disso, no entanto, acredito que a próxima experiência será um livro de crônicas que reúne mais de cem crônicas da era do rádio, cujo título pode ser “No tempo da Maricota”. Maricota é um equipamento composto por algumas peças eletrônicas – condensador, resistência e plug – que era acoplado ao gravador e telefone e possibilitava ao jornalismo algumas façanhas como entrevistar alguém por telefone ou gravar a participação do repórter ou comentarista a fim de passar no noticiário de rádio. Tudo isso antes do celular, microcomputador, Wi-Fi…

Finalmente, pergunto que conselhos ele daria para jovens escritores que estão começando suas carreiras literárias. Walter aconselha:

Primeiramente, sugiro que leiam muito, muitos livros. Segundo, que procurem ver além do conteúdo narrativo, os elementos gráficos que reúnem informações muito além do que se vê em um passar de olhos. Além disso, procurar entender a nossa língua e a gramática. O gosto pela escrita correta contribui muito para a qualidade do que cada um escreve.



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