“O mundo não é feito só de bondade — deveria, mas não é assim.”

Lembro de ter lido “Noite na Taverna” na adolescência, na prévia de algum vestibular. Antes disso, o livro de Álvares de Azevedo, em que pese a temática instigante, havia passado abaixo do meu radar.

Admito que a chamada literatura de vestibular me causava urticária. Não que eu não gostasse dos livros. Na verdade, além da obrigatoriedade, me faltava bagagem para compreender a linguagem do século XIX. Mas isso não é relevante para o momento. O fato é que a experiência com o livro em mãos foi arrebatadora.

Num breve resumo, caso você ainda não tenha lido, a história retrata cinco amigos que estão numa taverna, bêbados, contando episódios vividos, que vão desde a traição, passando pelo incesto, necrofilia, fratricídio e canibalismo.

Dito isto, vamos que ao importa. Dias atrás me deparei com uma obra que me fisgou pelo nome: “Máquinas Escrotas”. Além do nome sugestivo, a descrição da obra me capturou. Era a releitura daquele clássico, feita por um escritor que, durante 13 anos, organizou um sarau mensal na sua cidade, celebrando a obra de Álvares de Azevedo. Ou seja, o cara sabia onde estava pisando.

Vasculhei a internet e achei o seu contato. Mandei um e-mail para Rodrigo Santos, o “flamenguista, escritor, professor, roteirista e corredor de rua assintomático”, pedindo a ele uma entrevista sobre sua obra. E, para minha felicidade, ele prontamente respondeu.

Em nosso “bate-papo” por e-mail, Rodrigo me conta sobre o que o inspirou a escrever “Máquinas Escrotas”.

– Sempre fui muito apaixonado pelo “Noite na Taverna”. Os temas tão crus e obscenos desfilando ali, em uma obra do séc. XIX. Eu acredito em uma literatura que desconforte, que desequilibre — não pelo desequilíbrio em si, mas pela reflexão. Acho que há um tempo estamos numa busca por uma literatura de “conforto”, de “pertencimento”, e não creio que esse seja o lugar da literatura. Então, decidi pegar um livro pelo qual sou apaixonado (não só pelo tema, mas pela escrita também), e tentar contar essa história nos dias de hoje — com todos os elementos “escrotos” que já estavam na obra original.

“Máquinas Escrotas” aborda justamente a escrotidão da vida:

– Pessoas que fazem escolhas egoístas, mesquinhas, e que são levadas em uma espiral de erros. Pessoas escrotas, como muitas que existem por aí. Ficamos nessa busca de personagens sublimes, altivos e compassivos, daí quando aparece um Bolsonaro da vida todo mundo se espanta. O mundo não é feito só de bondade — deveria, mas não é assim. O livro remonta aos temas obscenos da obra original: necrofilia, pedofilia, assassinato, suicídio. Tudo em nome de um amor idealizado, que se mostra doentio e leva pessoas comuns a atos imorais através de sua própria falibilidade e torpeza.

A narrativa reflete bastante uma visão pessimista sobre o ser humano:

– Como diz um dos personagens, “somos apenas máquinas escrotas de comer, cagar e trepar”, me escreve Rodrigo, que prossegue: “Claro que, como indivíduo, não é só isso que vejo no ser humano. Vejo uma miríade de boas possibilidades, inclusive acredito que há muito mais pessoas boas que ruins no mundo, os maus apenas são mais ruidosos. Mas eu quis, nesse livro, mostrar esse lado negativo mesmo, inspirado no “Noite na Taverna”.

Rodrigo me conta que levou muito tempo para concluir o livro:

– O que acho bacana em meus personagens é que são pessoas comuns, mais ou menos mesquinhas como todos nós, mas que escolhem caminhos tortuosos (e criminosos) em busca do amor. Eu tinha essa ideia há muito tempo. Rabisquei alguma coisa, deixei para lá, fui escrever outras paradas. Daí, em uma oficina de roteiro da qual participei, decidi apresentá-la no formato de longa-metragem, foi quando construí a estrutura. Não virou filme, mas finalmente desenvolvi essa estrutura e a transformei em livro. Quase todas [as cenas foram desafiadoras de escrever]. A literatura não é vida, né? É um pedaço da vida. Como escolhi pedaços bem odientos, foi incômodo desenvolver algumas cenas.

Rodrigo vê valor em boas histórias que são contadas e recontadas:

– Boas histórias não morrem jamais. As histórias de Shakespeare são contadas e recontadas quase à exaustão, e ainda chamam a atenção. Depende de como se conta. Trazer essa obra para a hodiernidade foi, particularmente, um desafio gostoso. Aqueles personagens de Álvares de Azevedo ainda estão por aí, cometendo suas escrotidões — e até mais. A única coisa que há de pessoal no contexto é a minha vontade de recontar essa história, não tenho nenhum approach com os personagens. Mas sou um bom ficcionista, e é isso o que faço. Contar boas histórias.

Rodrigo me conta sobre o sarau que organizou por 13 anos:

– “Uma Noite na Taverna” foi um evento artístico multicultural centrado na poesia, criado por mim e por Romulo Narducci, um dos maiores poetas da hodiernidade. Conhecemo-nos através da poesia, em 2003, ficamos amigos quase que imediatamente, principalmente por nossas influências literárias e por nossa produção poética. Um dia, Romulo recebeu o convite do SESC de São Gonçalo para fazer uma apresentação poética, e decidimos fazer o sarau. O nome — olha só! — já foi uma inspiração no livro do Álvares de Azevedo, uma referência comum nossa. Criávamos um ambiente de Taverna mesmo, com velas sobre as mesas e vinho aos borbotões. Durou 13 anos, de periodicidade mensal, e tínhamos uma média de público de 120 pessoas, com picos de mais de 200 pessoas. Para ouvir poesia. Em São Gonçalo. Importante lembrar que o evento sempre foi gratuito, pois a nossa intenção era popularizar a poesia falada, e abrir espaço para outros artistas que, como nós, criávamos à sombra do “sucesso” e da exposição midiática. A última edição foi em 2016, e até hoje nos perguntam quando voltaremos com o evento. Acredito ter sido um evento importante para a cidade sim, que nunca tinha visto nada parecido antes e nunca mais viu outro igual.

Sobre trabalhos futuros, Rodrigo me conta que tem duas obras aguardando editora:

– Eu escrevo todo dia. Tenho dois livros prontos na gaveta (na nuvem, né? Nem no HD é mais). Um livro de contos urbanos, semelhante ao “Carcará”, que lancei pela Editora Malê em 2021, e um de contos longos de horror, com uma pegada lovecraftiana. Os dois à espera de uma editora. Como já tenho essas obras prontas, decidi este ano só trabalhar com audiovisual, deixar um pouco a literatura. Trabalhei em dois longas-metragens (um em fase de captação e o outro em produção já), e estou escrevendo um outro, uma cinebiografia.

Rodrigo espera que os leitores encontrem refúgio em suas histórias:

– O que eu espero de todos os meus livros: que eles encontrem refúgio de suas vidas por algum momento em minhas histórias, como eu pude me refugiar lá atrás em tantos bons livros. Que tenham um tempo agradável, que se emocionem, fiquem com raiva ou aliviados. Já vale.

E por fim, me conta como tem sido a reação dos leitores com a sua obra:

– O livro tem sido muito bem recebido pelos leitores. Recebo algumas reações de putidão com as histórias e com os personagens, mas a intenção era essa, né? O desconforto causado pela Arte é sublime, e reflexivo.


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